Economia da Cultura e o audiovisual do Brasil
Economia da Cultura e o audiovisual do Brasil

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
![]()
Para diretores e produtores como Walter Salles ou Wagner Moura, o debate sobre Economia da Cultura não é teoria, é uma questão de sobrevivência e sustentabilidade industrial. O cinema brasileiro enfrenta hoje o que podemos chamar de "colonialismo digital": produzimos a matéria-prima (histórias, estética, talento), mas não somos donos das refinarias (streaming) nem dos postos de gasolina (distribuição). A prensa do capital esmaga!
| “ |
"O Streaming é o "Novo Latifúndio". A concentração de 70% do capital mundial de investimentos nas mãos dos EUA reflete-se diretamente nas plataformas que ditam o que o brasileiro assiste. Netflix, Amazon Prime, Disney+ e Apple TV+ não são apenas vitrines; são proprietárias globais.” |

O cinema brasileiro busca seu espaço na festa do Oscar
Quando um produtor ou um diretor de cinema brasileiro assina com uma dessas gigantes, muitas vezes ele entrega o copyright (propriedade intelectual) em troca do financiamento. O filme é brasileiro no set, mas o ativo financeiro e os dados de audiência pertencem ao Vale do Silício. Sem a posse do catálogo, a produtora brasileira não acumula patrimônio histórico. Ela se torna uma prestadora de serviços para o capital estrangeiro.

O filme é brasileiro... a lata é dos EUA ou da Comunidade Econmica Europeia
| “ |
"O caso do filme "O Cangaceiro" (1953) é historico e exemplar. O filme foi um fenômeno mundial, premiado em Cannes e exportado para mais de 80 países. Acontece que a distribuição foi entregue à Columbia Pictures (americana). Resultado? Apesar do sucesso estrondoso de bilheteria global, quase nada retornou para a produtora Vera Cruz ou para os realizadores brasileiros. O capital estrangeiro "sugou" a mais-valia cultural da obra.” |
Ficou a lição, sem controle sobre a distribuição (onde os 70% do capital opera), o sucesso de público de um filme brasileiro serve apenas para enriquecer fundos de investimento americanos, deixando o produtor local sem fôlego para financiar o próximo projeto. Neste contexto é interessante entender porque existe tamanha obsessão pelo Oscar: Por que ele é tão desejado? Para figuras como Walter Salles ou Wagner Moura, o interesse no Oscar não é apenas vaidade; é uma estratégia de mercado para enfrentar a assimetria dos mínimos 6% de capital existente nos cofres dos países emergentes, como o Brasil, para investimentos. Desta maneira, ganhar (ou ser indicado ao) Oscar é a única forma de um filme brasileiro "furar a bolha" e exigir contratos de distribuição mais justos, onde o produtor brasileiro mantém uma fatia maior dos direitos. Para ser exato, a fatia continuará sendo minúscula.

"Carioca Bom" para os EUA é aquele patenteado por uma empresa americana
| “ |
"Como os EUA detêm o capital de risco, o Oscar funciona como um "seguro" que autoriza investidores globais a colocarem dinheiro em projetos brasileiros de alto orçamento, que de outra forma seriam considerados "arriscados" demais. Para ser exato: filmes futuros que serão propriedades de investidores estrangeiros.” |
Hoje os algoritmos decidem o que é "visível". Sendo assim, os filmes de brasileiros ficam escondidos se não seguirem o padrão global que define quais catálogos devem ser comprados, inclusive os direitos totais. O dinheiro americano dita os temas (identitarismo global vs. realidade local). Que cria o risco de perdermos a nossa "cor local" para agradar ao mercado externo. Para o produtor brasileiro, a luta é para que o cinema não seja apenas um "produto de exportação" extrativista (como foi o ciclo do café ou do ouro), mas uma indústria de bens de capital intelectual. Enquanto a distribuição e o streaming estiverem concentrados em mãos estrangeiras, continuaremos produzindo sucessos que, financeiramente, "não rendem nada" para quem realmente os criou, repetindo o ciclo trágico de O Cangaceiro.

Lenin na Praça Vermelha, Moscou 1918
| “ |
"No livro "O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo" (1916) Vladimir Lenin descreve exatamente o fenômeno que Walter Salles e Wagner Moura enfrentam: a fusão do capital bancário com o capital industrial, criando o capital financeiro, que não precisa produzir nada para lucrar, apenas controlar os fluxos.” |
Pertence a Lenin a afirmação de que "o capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população (e de artistas e produtores culturais - minha observação) do planeta por um punhado de países 'avançados'."
![]()
![]()
Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura



