Economia da Cultura e o Livro Brasileiro

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

O cenário de concentração de capital disponível para investimentos (70% nos EUA e apenas 6% nos países emergentes) não dita apenas as regras do cinema ou da música. Redesenha o mapa da Literatura Brasileira no mercado global. Para um autor brasileiro, atravessar a fronteira entre o "nacional" e o "global" exige navegar por uma estrutura de poder profundamente assimétrica.

"A diferença entre Paulo Coelho e Jorge Amado é a chave para entender as duas formas de inserção no mercado global. Jorge Amado é um internacionalista. Ele exportou a Bahia! Sua obra é profundamente brasileira, ligada à terra e ao povo, e foi traduzida para dezenas de línguas como a "estética do outro". Ele é um internacionalista porque manteve sua raiz fincada no Brasil enquanto sua obra viajava. Paulo Coelho é Global. Hoje ele é o escritor brasileiro mais lido no mundo porque sua obra é desterritorializada. Seus temas (espiritualidade, busca pessoal) são universais e funcionam em qualquer cultura sem a necessidade de tradução de contexto social. Ele não exporta o Brasil; ele habita o mercado global como um autor nativo desse sistema de 70% de capital, o que o torna um fenômeno de vendas sem precedentes.

Jorge Amado e Paulo Coelho

Importante considerar que as maiores editoras que operam no Brasil possuem acionistas estrangeiros. A Companhia das Letras, hoje é controlada pela britânica Penguin Random House; por sua vez a Editora Moderna pertence ao Gupo Santillana, um conglomerado espanhol de educação e mídia. Isso significa que as decisões editoriais — o que será publicado e promovido — passam por métricas de rentabilidade globais. Nas grandes feiras internacionais (como Frankfurt), o privilégio é total para os best-sellers e, especialmente, para livros com potencial de se tornarem filmes ou séries (o "book-to-screen"). O livro deixou de ser um objeto cultural para ser um "IP" (Propriedade Intelectual) a ser explorado em múltiplas plataformas. Devemos uma homenagem aqui ao Grupo Edutorial Record, sediado no Rio de Janeiro e fundado em 1940, por ser um dos maiores conglomerados editoriais do Brasil com capital 100% nacional. 

"As livrarias de rua e megastores no Brasil sobreviveram apenas em bairros de classe média e elite, funcionando quase como centros de conveniência cultural. Nas periferias e no interior do país, especialmente em pequenas cidades, o mercado de livrarias é escasso. A circulação do livro sobrevive através de bibliotecas em escolas, universidades, igrejas e centros culturais comunitários, onde o livro é um bem compartilhado, e não apenas uma mercadoria.

O mercado global está dividido em três grandes frentes que competem pelos 70% do capital disponível. Livros físicos que continuam sendo o "fetiche" e o objeto de prestígio, mas enfrentam custos crescentes de papel e logística. Livros digitais (E-books), dominados por gigantes como a Amazon, oferecem a distribuição global imediata, mas sofrem com a pirataria e a desvalorização do preço unitário. Audiolivros que é o setor que mais cresce globalmente neste momento. Ele se conecta à economia do streaming, transformando a leitura em uma atividade multitarefa, muito atraente para os grandes fundos de investimento que buscam o "tempo de atenção" do consumidor. Assim como no cinema de Walter Salles e Wagner Morura e na música de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, a literatura brasileira luta para não ser apenas um "fornecedor de matéria-prima". Sem editoras nacionais fortes e com capital próprio, o escritor brasileiro depende da validação de agentes e acionistas estrangeiros para que sua voz seja ouvida fora de suas fronteiras.

"Ecoando a visão de Lenin sobre a centralização das forças produtivas e o controle dos meios de circulação: "O capitalismo, na sua fase imperialista, conduz diretamente à socialização mais completa da produção... mas a apropriação continua a ser privada. Os meios de produção sociais permanecem propriedade privada de um pequeno número de indivíduos." (V.I. Lenin, em “O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo”)

No mercado de livros, os "meios de produção" são as editoras, os algoritmos das lojas digitais e das feiras globais. Enquanto o controle desses meios estiver concentrado nas mãos dos EUA e da Comunidade Econômica Europeia, que detêm os 70% do capital para investimentos mundiais, a literatura brasileira continuará sendo "emergente". Vai lutar por um espaço nos 6% de visibilidade que restam ao resto do mundo.

Luiz Carlos Prestes Filho é Especialista em Economia da Cultura e coordenador do estudo pioneiro Cadeia Produtiva da Economia do Carnacal (2006-2010)