Fascismo: Contradições do Imperialismo Monopolista

Fascismo: Contradições do Imperialismo Monopolista

Luiz Carlos Prestes líder antifascista do Brasil no Tribunal de Segurança Nacional, Rio de Janeiro, 1937

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Entrevista com o engenheiro Miguel Manso

Exclusivo Catetear Notícias

O jornal Catetear Notícias realizou uma série de entrevistas sobre o tema: FASCISMO. Os entrevistados foram Miguel Manso, engenheiro e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Ivan Alves Filho, historiador e membro do partido Cidadania; Marly Vianna, historiadora, ex-membro do comitê central do Partido Comunista Brasileiro (PCB); e Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB).  Nas entrevistas fica claro que o fascismo expressa as contradições do imperialismo monopolista, as disputas interimperialistas e a necessidade de reorganização violenta da hegemonia do capital em períodos de crise sistêmica.

Luiz Carlos Prestes Filho: Sua visão sobre a origem do fascismo?

Miguel Manso: Na busca incansável e insaciável pelo lucro máximo e concentração da propriedade privada, sem lograr superar o caos e a anarquia do desenvolvimento desigual e, apesar da verticalização crescente dos meios de produção, o imperialismo é incapaz de superar a falta de planejamento centralizado de toda a economia. Trava e desorganiza, sempre que avança a centralização dos monopólios privados, o desenvolvimento das forças produtivas, ao tentar sufocar o mercado, com práticas monopolistas, de controle de preços artificialmente elevados sobre o mercado e de arrocho sem limites sobre os trabalhadores, de imposição de suas práticas monopolistas e intermináveis guerras de rapina por controle de reservas minerais e supressão pela força dos seus concorrentes. A prática de arrochar salários e retirar direitos, para buscar superar a concorrência entre os próprios monopólios e contornar a lei da redução crescente da taxa de lucro, conduz inevitavelmente a que no plano político tratem de golpear a democracia e o regime de direitos sociais, para impor pelo fascismo um regime de “escravidão” e miséria para as amplas massas de trabalhadores no mundo.

Membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), no centro Plínio Salgado, principal líder

"O fascismo, não é pois um fenômeno marginal do sistema de dominação imperialista, é assim decorrência central da incapacidade do capitalismo, em sua fase imperialista, de conviver com a livre concorrência nos mercados, com a democracia e com a soberania dos povos e Nações, é parido nas suas entranhas, na contradição interimperialista, na crise terminal do capitalismo monopolista, acelerando sua superação histórica, a inevitável busca de liberdade e emancipação das Nações da violenta opressão a que são submetidos. O Fascismo não é provocado pelo surgimento do socialismo ou da liberdade dos povos e Nações, pelo contrário. A Democracia, a Liberdade, a Soberania e o Socialismo são o caminho para a sua superação, para a libertação da Humanidade do regime Fascista dos monopólios imperialistas decadentes, são o caminho para o desenvolvimento pacífico das forças produtivas e da civilização, para o bem estar de todos e a sustentabilidade do Planeta. 

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Miguel Manso: Sim, negligenciamos profundamente a importância do fascismo na formação política brasileira e talvez tenhamos cometido um erro ainda maior: tratá-lo como um acidente histórico importado da Europa, quando, na realidade, ele expressa tendências estruturais do próprio capitalismo monopolista e imperialista em momentos de crise e reorganização do poder global. A experiência histórica do século XX demonstra que o fascismo não surgiu como um fenômeno marginal ou meramente reativo. Ele foi parte do processo de reorganização violenta do capitalismo em sua fase monopolista e imperialista, especialmente quando a ordem liberal entrou em colapso após a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929. Grandes conglomerados financeiros e industriais, elites políticas e potências imperiais apoiaram, toleraram ou estimularam regimes fascistas como instrumentos de expansão geopolítica, militarização econômica e resolução violenta das contradições interimperialistas, e continuam a fazê-lo de forma mais generalizada e financiada nos dias de hoje. A crise do colonialismo britânico e a ascensão do fascismo foram fenômenos paralelos do século XX. O desgaste econômico e militar da Primeira Guerra abalou o controle do Império Britânico sobre suas colônias, enquanto a crise do liberalismo gerou os regimes fascistas, que buscavam construir seus próprios impérios coloniais, assim como possibilitou o surgimento da primeira experiência socialista - a URSS. A ascensão de Hitler não pode ser compreendida sem considerar o papel do financiamento internacional, da reorganização econômica pós-Versalhes e da política de apaziguamento das potências ocidentais. Nesse sentido, o fascismo não pertence apenas ao passado. A derrota militar do nazi-fascismo em 1945 não eliminou suas bases históricas. Elas permaneceram latentes porque o sistema que o produziu continuou existindo. A própria experiência posterior demonstra isso: mesmo após a queda da União Soviética — quando muitos anunciaram o “fim da história” e a vitória definitiva do liberalismo — não houve estabilização democrática duradoura. Pelo contrário: aprofundaram-se desigualdades, guerras, financeirização extrema, desindustrialização, crises econômicas e disputas entre conglomerados monopolistas e potências em declínio e ascensão. O resultado foi o ressurgimento de formas neofascistas em várias partes do mundo.

"No Brasil, país que há mais de século trava uma profunda luta para romper com a dependência e sair da condição de subordinação à dominação das forças imperialistas, empobrecido pela condição de exploração a que é submetido, essas tendências fascistizantes encontraram um terreno historicamente fértil: herança escravista, extrema desigualdade, violência oligárquica, autoritarismo estrutural, dependência econômica e recorrente submissão das instituições aos interesses dos grandes grupos econômicos. Não se trata de dizer que o Brasil seja “essencialmente fascista”, ou dele presa fácil, mas reconhecer que o fascismo encontrou aqui bases sociais e institucionais relevantes e reaparece em momentos de crise do pacto dominante e das correntes neo liberais.

A lição histórica talvez seja esta: o fascismo não desaparece porque suas condições materiais permanecem. Ele se transforma, adapta-se às novas tecnologias, às redes digitais, às guerras híbridas e às novas disputas geopolíticas do imperialismo em crise.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com 1,2 milhão de membros nos anos 1930. Como você analisa este fato?

Miguel Manso: Esse dado histórico é importante e desmonta a ideia de que o fascismo teria sido algo periférico ou exótico no Brasil. Entre os países em desenvolvimento e periféricos do sistema capitalista, a Ação Integralista Brasileira foi o maior movimento fascista fora da Europa e isso revela que o Brasil estava profundamente inserido nas contradições globais do capitalismo em crise. O integralismo não foi um desvio isolado da história nacional, mas expressão brasileira de um movimento internacional que reorganizava politicamente sociedades inteiras sob bases ultranacionalistas, militarizadas e autoritárias.

Ao centro o líder da Ação Integralista Brasileira (partido fascista), Pílino Salgado

"Seu crescimento ocorreu no mesmo contexto em que o sistema liberal internacional entrava em colapso após a crise de 1929. A crise econômica, a disputa entre potências imperiais, a decadência de velhas hegemonias e a luta por novos espaços de dominação criaram um ambiente internacional de radicalização política. O integralismo expressou essa reorganização: moralismo conservador, nacionalismo autoritário, mobilização de massas, anti pluralismo político, militarização simbólica e culto ao líder. Mas também refletia as particularidades do capitalismo dependente brasileiro, da influência do latifúndio, das oligarquias e de setores empresariais interessados numa ordem social rigidamente hierarquizada. A existência de 1,2 milhão de integralistas deveria provocar uma revisão profunda da memória histórica brasileira. Não fomos observadores distantes do fascismo do século XX. Fomos parte ativa desse conflito histórico.

E talvez a principal lição seja esta: o fascismo cresce quando grandes interesses econômicos e políticos precisam reorganizar o poder em meio a crises sistêmicas, disputas entre blocos dominantes e esgotamento de pactos sociais anteriores. Quando observamos o século XXI — o crescimento da extrema-direita nos EUA, Europa e América Latina, o papel das big techs, conglomerados financeiros e guerras informacionais — percebemos que não se trata de uma repetição mecânica do passado, mas de uma nova manifestação de tendências profundas do capitalismo monopolista em crise. 

Prestes Filho: O Levante Revolucionário de 1935, chamado de Intentona Comunista, foi uma ação armada contra o fascismo. Antes mesmo da Guerra Civil Espanhola. Em perspectiva histórica este levante teria importância simbólica semelhante ao envio da FEB para combater o fascismo na Europa?

Miguel Manso: A primeira disputa é sobre a própria narrativa histórica. O termo “Intentona Comunista” foi cristalizado pela propaganda repressiva do Estado Novo e posteriormente reforçado pela Guerra Fria. Ele reduz um processo político muito mais complexo e obscurece o contexto histórico real em que ocorreu desde os levantes de Copacabana, da revolução de 1924, do tenentismo e da Coluna Prestes, até o levante de 1935. O movimento precisa ser compreendido no cenário internacional de ascensão do fascismo e da reorganização autoritária do capitalismo mundial.

1935 - Levante Antifascista no Brasil

Em 7 de outubro de 1932, é lançada a Ação Integralista Brasileira (AIB) sob a liderança do escritor Plínio Salgado. O movimento cresceu rapidamente, tornando-se a maior expressão do fascismo fora da Europa. Em 1934 ocorre a "Batalha da Praça da Sé" (ou Revoada das Galinhas Verdes), um confronto histórico entre integralistas e militantes antifascistas em São Paulo. Hitler havia chegado ao poder na Alemanha em 1933, Benito Mussolini chegou ao poder na Itália em outubro de 1922, impulsionado pela chamada Marcha sobre Roma, uma grande mobilização de massas e demonstração de força organizada pelo Partido Nacional Fascista (PNF). Segue-se uma política de privatizações e desmantelamento de leis trabalhistas.

"Em 1923 - 1930 na Espanha toma o poder e instala-se a Ditadura de Primo de Rivera. Em 1923: O General Miguel Primo de Rivera dá um golpe de Estado com apoio do rei Afonso XIII. Instaura uma ditadura militar com fortes traços autoritários, considerada o primeiro ensaio de um regime fascista na Espanha. Em 1930: Com o desgaste político e a crise econômica, Primo de Rivera renunciou, abrindo caminho para a queda da monarquia. Em 1931: Proclamada a Segunda República Espanhola. O rei Afonso XIII vai para o exílio. O novo governo tenta implementar reformas agrárias e trabalhistas, gerando insatisfação na elite e na Igreja Católica. Em 1933: É fundada a Falange Espanhola, um partido de inspiração fascista liderado por José Antonio Primo de Rivera. Em 1936 (Fevereiro): A coalizão de esquerda "Frente Popular" vence as eleições gerais, o que acelera conspirações militares da direita. Em 1936 - 1939: A Guerra Civil Espanhola, o conflito é visto como um "ensaio geral" para a Segunda Guerra Mundial.

Na medida em que Prestes e os comunistas brasileiros, à época, optaram em não se aliar a Getúlio Vargas, em parte seguindo orientações ainda equivocadas da Internacional Comunista, cresceu a força do integralismo dentro da importante e vitoriosa revolução de 1930. A aliança seria consolidada com o altruísta gesto de Prestes no pós-guerra, o que deu importante impulso ao Governo Vargas e suas conquistas até 1954, aliança que prosseguiu até o golpe de 1964.

"A Aliança Nacional Libertadora constituiu-se assim, como uma frente antifascista e anti-imperialista, reunindo diferentes correntes políticas em torno da defesa da soberania nacional, das liberdades democráticas e do combate ao integralismo. O manifesto de Prestes era explícito ao afirmar: “Abaixo o fascismo!”.

Em Janeiro de 1935: O manifesto público da ANL é lido na Câmara dos Deputados, dando início às mobilizações populares. Em 12 de Março de 1935: Fundação oficial da ANL no Rio de Janeiro, agregando comunistas, socialistas, tenentistas e democratas sob a liderança honorária de Luís Carlos Prestes. Em 30 de Março de 1935: Ocorre o lançamento público e o primeiro grande comício da organização no Teatro João Caetano (RJ), reunindo milhares de pessoas. Maio a Junho de 1935: A organização cresce exponencialmente, formando mais de 1.600 comitês e atingindo cerca de 400 mil filiados pelo país, exigindo "Pão, Terra e Liberdade". Em 11 de Julho de 1935: O presidente Getúlio Vargas, utilizando a Lei de Segurança Nacional, decreta o fechamento da ANL, classificando-a como fachada do Partido Comunista. Em Novembro de 1935: Após entrar na clandestinidade, membros da ANL e do Partido Comunista lideram o Levante Comunista (ou Intentona Comunista) contra o governo Vargas em cidades como Natal, Recife e Rio de Janeiro, movimento que foi severamente reprimido.

"Em 1937 (Novembro): Com o início do Estado Novo, Getúlio Vargas decreta o fechamento de todos os partidos políticos, incluindo a AIB. Sentindo-se traídos, muitos integralistas rompem com o governo. Em 1938 (Maio): Ocorre o Levante Integralista, uma tentativa frustrada de golpe armado contra o Palácio Guanabara para depor Vargas. O fracasso resulta na prisão e exílio de Plínio Salgado. Sob esse ponto de vista histórico, é plenamente defensável afirmar que 1935 foi uma das primeiras iniciativas organizadas de resistência ao fascismo no mundo, experiência que com certeza ajudou à própria mobilização internacional que ganharia expressão na Guerra Civil Espanhola. Seu significado histórico talvez tenha sido subestimado porque os vencedores escrevem a narrativa oficial.

A participação da Força Expedicionária Brasileira foi incorporada legitimamente à memória nacional como combate ao nazi-fascismo externo, o levante de 1935 foi criminalizado e apagado justamente porque questionava as bases internas do autoritarismo e da dependência brasileira. A FEB representou a participação oficial do Estado brasileiro na derrota militar do nazi-fascismo; o movimento de 1935 representou a primeira tentativa histórica de setores populares e patrióticos de impedir que o fascismo se consolidasse dentro do Brasil, quando muitos ainda subestimavam o tamanho da ameaça mundial.

Soldado do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial nas terras da Itália

A histórica aliança Prestes - Getúlio, comunistas e trabalhistas, continua a nos inspirar nos dias de hoje, em que seguimos a luta para derrotar o Bolsonarismo e seus seguidores - a corrente do fascismo que foi derrotada em 2022 e será novamente derrotada em 2026.

Miguel Manso é engenheiro, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)