O Fascismo Encontrou Terreno Fértil no Brasil

O Fascismo Encontrou Terreno Fértil no Brasil

Luiz Carlos Prestes líder antifascista do Brasil no Tribunal de Segurança Nacional, Rio de Janeiro, 1937

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Paulo Bracerense é professor

Exclusivo Catetear Notícias

O jornal Catetear Notícias está realizou uma série de entrevistas sobre o tema: FASCISMO. Os entrevistados foram Miguel Manso, engenheiro e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Ivan Alves Filho, historiador e membro do partido Cidadania; Marly Vianna, historiadora; e Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB).  Nas entrevistas fica claro que o fascismo expressa as contradições do imperialismo monopolista, as disputas interimperialistas e a necessidade de reorganização violenta da hegemonia do capital em períodos de crise sistêmica.

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Paulo Bracarense: Durante muito tempo, a historiografia e a memória política brasileiras trataram o fascismo como um fenômeno essencialmente europeu, ligado à Segunda Guerra Mundial, à Benito Mussolini e à Adolf Hitler. Isso produziu a impressão de que o Brasil teria sido apenas um observador periférico daqueles acontecimentos. Entretanto, os estudos mais recentes mostram que o fascismo encontrou terreno fértil no Brasil e dialogou profundamente com características estruturais da sociedade brasileira. Não significa afirmar que o Brasil tenha sido “um país fascista” em sentido clássico, mas sim reconhecer que elementos compatíveis com o fascismo estiveram presentes de forma recorrente em nossa formação política: autoritarismo, culto à ordem, militarismo, anticomunismo radical, racismo estrutural, violência contra movimentos populares, personalismo e a ideia de uma unidade nacional construída contra “inimigos internos”.

Cartaz da Ação Integralista Brasileira (AIB)

"O fascismo brasileiro não surgiu do nada nos anos 1930. Ele encontrou bases numa sociedade marcada pela escravidão, pela exclusão política das massas, pelo poder oligárquico e por uma modernização profundamente desigual. A experiência da Ação Integralista Brasileira mostrou que existia no país uma base social ampla para ideias ultranacionalistas, autoritárias e antidemocráticas.”

Paulo Bracarense: Ao mesmo tempo, é importante evitar simplificações. O fascismo não é o único elemento constituinte da sociedade brasileira. O Brasil também foi formado por fortes tradições populares, democráticas, socialistas, sindicalistas, negras, indígenas e antifascistas. A história brasileira é marcada justamente pela disputa permanente entre projetos autoritários e projetos democráticos de inclusão social. Os estudos recentes sobre bolsonarismo e extrema-direita apontam que muitas linguagens políticas do presente retomam elementos do integralismo histórico: o discurso antissistema combinado com conservadorismo moral, o culto ao líder, o nacionalismo agressivo, o anticomunismo paranoico e a mobilização emocional permanente contra instituições democráticas. Isso ajuda a explicar por que determinadas formas de radicalização política encontraram tanta ressonância social no Brasil contemporâneo.

Prestes Filho: O Brasil foi o país com o maior partido fascista fora da Europa: a Ação Integralista Brasileira contava com 1,2 milhão de membros nos anos 1930. Como analisar este fato?

Paulo Bracarense: O crescimento da Ação Integralista Brasileira é um dos fatos mais importantes — e frequentemente subestimados — da história política brasileira do século XX. Ter o maior movimento fascista fora da Europa demonstra que o fascismo não foi apenas um produto “externo” importado mecanicamente para o Brasil. O integralismo conseguiu traduzir o fascismo para a realidade nacional, adaptando-o às tensões brasileiras da época. A crise econômica após 1929, o medo das elites diante do crescimento do movimento operário, o avanço das ideias socialistas, a urbanização acelerada e a instabilidade política da década de 1930 criaram um ambiente propício para soluções autoritárias. O integralismo apareceu como promessa de “ordem”, “unidade nacional” e combate ao comunismo. Além disso, o movimento liderado por Plínio Salgado foi extremamente eficiente na mobilização de massas. Utilizou símbolos, uniformes, rituais, estética militarizada, propaganda moderna e forte presença entre setores médios urbanos, militares, parte da Igreja e intelectuais conservadores. Em muitos aspectos, antecipou formas contemporâneas de mobilização política emocional.

Departamento feminino da Ação Integralista Brasileira (AIB)

"O fato de reunir cerca de 1,2 milhão de membros também revela algo profundo sobre as contradições da modernização brasileira. O país vivia um processo rápido de transformação social, mas sem integração democrática das massas. Em contextos assim, movimentos fascistas costumam crescer oferecendo identidade, pertencimento e explicações simplificadas para crises complexas. Outro aspecto importante é perceber que o integralismo brasileiro possuía características próprias. Diferentemente do nazismo alemão, o integralismo defendia uma ideia de miscigenação nacional e tentava construir uma imagem de “fascismo tropical”. Isso não o tornava menos autoritário; apenas adaptava o fascismo às particularidades da sociedade brasileira.

Quartel do 3.º Regimento de Infantaria no Rio de Janeiro em chamas após a insurreição da ANL

Prestes Filho: O Levante Revolucionário Antifascista de 1935 teria importância simbólica semelhante ao envio da FEB para combater o fascismo na Europa?

Paulo Bracarense: A chamada “Intentona Comunista” — expressão consolidada pela propaganda conservadora e posteriormente pela historiografia oficial — precisa ser reinterpretada à luz do contexto internacional dos anos 1930. O movimento de 1935 ocorreu num momento em que o fascismo avançava globalmente: Benito Mussolini já governava a Itália, Adolf Hitler consolidava o poder na Alemanha e regimes autoritários cresciam em vários países. Nesse cenário, a Aliança Nacional Libertadora surgiu como uma frente ampla antifascista, anti-imperialista e popular. Sob esse ponto de vista, o levante de 1935 pode ser interpretado como uma das primeiras tentativas de resistência armada antifascista do mundo, anterior inclusive à Guerra Civil Espanhola. Essa dimensão histórica frequentemente foi apagada porque, após a derrota do movimento, o governo de Getúlio Vargas utilizou o episódio para justificar o endurecimento autoritário que culminaria no Estado Novo. No plano simbólico, o envio da Força Expedicionária Brasileira para lutar contra o nazi-fascismo na Europa possui enorme relevância internacional e memória consolidada. Foi a participação oficial do Estado brasileiro na derrota militar do Eixo.

Soldados brasileiros voltam para o Brasil após Segunda Guerra Mundial

"Mas o levante de 1935 possui outro tipo de significado histórico: representa uma resistência precoce e interna ao crescimento do fascismo no Brasil. Enquanto a FEB simboliza a participação brasileira na derrota externa do fascismo europeu, 1935 simboliza o enfrentamento doméstico contra tendências autoritárias e fascistas que já se manifestavam na sociedade brasileira. A diferença fundamental é que a memória da FEB foi incorporada ao discurso oficial do Estado brasileiro após a guerra, enquanto a memória de 1935 foi criminalizada durante décadas pelo anticomunismo. Isso produziu uma assimetria histórica: um episódio virou símbolo nacional; o outro permaneceu marginalizado ou tratado apenas como “subversão”. Hoje, muitos historiadores defendem justamente a necessidade de revisitar 1935 não apenas como uma insurreição comunista fracassada, mas como parte da história internacional do antifascismo no século XX

Paulo Bracarense é professor, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB)