A última página de Márcia Gomes

A última página de Márcia Gomes

Márcia Gomes: escritora, educadora, historiadora, filósofa e editora

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Serei sempre grato a Márcia Gomes por ter sido a produtora que tornou possível a estreia da minha obra dramático-musical "Molhem minha goela com cachaça da terra", realizada em parceria com o compositor Lucas Bueno e prefaciada por Carlos Siqueira e Paulo Bracarence da Fundação João Mangabeira. Baseada no livro de Ivan Alves Filho, "O caminho do alferes Tiradentes", e estruturada a partir das últimas palavras atribuídas a Tiradentes antes de seu suplício. Levar a música, poesia e canções aos ouvintes de São João del-Rei e Tiradentes, com a Orquestra da Universidade Federal de São João del-Rei, regida pelo maestro Modesto Fonseca e a voz marcante da soprano Julia Félix, teve um simbolismo histórico inestimável.

Debate sobre em São João del-Rei a mesa Paulo Bracarense, Ivan Alves Filho, Lucas Bueno, Luiz Carlos Prestes Filho e Márcia Gomes

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"A peça dedicada a Vitoriano Gonçalves Veloso, o único inconfidente negro, estreiou no alambique BOA VISTA que pertenceu ao irmão de Tiradentes, Domingos, hoje administrado pelos descendentes da décima geração do mártir, liderado por Nando Chaves e seu pai, Rubens Resende Chaves. Foi Márcia quem conectou a história e a raiz profunda das lutas do povo brasileiro de forma pulsante. Reunindo representantes da família de Luiz Carlos Prestes, Cavaleiro da Esperança, e de Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes.”

No mês de outubro de 2026 a cultura brasileira despediu-se de Márcia Gomes: escritora, educadora, historiadora, filósofa e editora. Ela deixou sua marca na literatura, na formação de gerações e na edição independente. Faleceu em Praga, capital da República Checa, para onde viajara para visitar a filha Maria Alice. Fechando assim uma trajetória que começou em Tiradentes e São João del-Rei, mas cujos frutos ecoam em acervos do Brasil e do exterior. Desde muito jovem, Márcia conheceu o valor do trabalho, começando a atuar aos dez anos de idade para ajudar no sustento familiar, construindo seu caminho acadêmico e formando-se em História e Filosofia para dedicar-se ao magistério, onde era respeitada por seus pares e alunos.

Nando Chaves, seu pai, Rubens Resende Chaves e Luiz Carlos Prestes Filho

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"Márcia fundou a Aquarius Produções Culturais, onde publicou 60 obras, revisando textos e idealizando capas. Sua relevância ultrapassou fronteiras, tendo obras catalogadas em bibliotecas dos Estados Unidos, Alemanha e França, Foi voz competente na Academia de Letras de São João del-Rei.”

A produtora cultural, Márcia Gomes, apresenta "Molhem minha goela com cachaça da terra" no alambique BOA VISTA. Ao fundo: Modesto Fonseca e Julia Félix 

No emocionante discurso de despedida proferido na Academia de Letras de São João del-Rei, o orador oficial José Antônio Oliveira de Resende, destacou a força de sua trajetória e a solidez da união com seu companheiro, o historiador Ivan Alves Filho. Como lembrado na oração acadêmica, a vida de Márcia não foi obra do acaso, mas sim um mosaico vivo construído por uma mulher que "foi uma guerreira amorosa e honesta, sempre agindo na segurança da luminosidade da ética".

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"Dirigindo-se aos familiares ele ressaltou o sentimentos de pesar, na 'certeza do reencontro feliz e definitivo no Céu', lembrando que 'sua memória renasce bem viva das cinzas, como a Fênix, mostrando que a morte jamais tem a última palavra'.”

Livros de Ivan Alves Filho e Luiz Carlos Prestes Filho

As solenidades em sua memória reuniu intelectuais, autoridades e a comunidade cultural em momentos de profunda comoção. Na Academia de Letras de São João del-Rei, instituição na qual ocupava cadeira de membro efetivo, reverenciaram seu legado literário, sua dedicação editorial e sua atuação na preservação da memória histórica regional. Na Câmara Municipal de Tiradentes, prestou-se uma homenagem oficial em honra à sua memória e contribuição pública, destacando o seu papel como educadora, historiadora e ex-secretária Municipal de Cultura e Educação.

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"Ao final das homenagens, cumprindo o desejo de conexão com as origens e com a terra que sempre inspirou sua vida, as cinzas de Márcia Gomes foram depositadas em sua amada cidade natal, Tiradentes (MG), selando o término de sua jornada física exatamente onde seus primeiros passos e ideais foram semeados.”

Luiz Carlos Prestes Filho e o casal Ivan Alves Filho e Márcia Gomes

O artigo de seu companheiro, Ivan Alves Filho, publicado no blog Democracia Política e Novo Reformismo, transcende a simples notícia de um falecimento; é uma verdadeira carta de amor a Márcia Heliane Gomes. Escrito com a delicadeza de quem teve a vida enriquecida por sua presença, o texto busca na poesia de Mário Quintana, no sopro leve de "Eles passarão e eu passarinho", o conforto para o adeus. Mais do que celebrar a impecável historiadora e editora que deu voz a tantos livros, Ivan abre espaço para o afeto, trazendo o eco da dor de amigos próximos, como Cristovam Buarque e Ângelo Oswaldo, e a certeza de que a partida de Márcia deixa um vazio imenso no coração de todos que a cercavam. É uma homenagem marcada pelo carinho de quem dividiu projetos, sonhos e a paixão pelas letras, imortalizando não apenas o trabalho impecável da escritora, mas a generosidade com que tocou a vida de seus amigos e a cultura do nosso país.

UM BANCO DE PRAÇA

Poema de Márcia Gomes

  

  

Estava eu sentada em um banco de praça

Em um banco inerte e calado

Ele experimenta abraços, sorrisos e prantos

Conversas acaloradas e pessoas também caladas

É descanso para quem busca paz, mas só para quem a procura

 

O sol se pondo é lindo de se ver

E ele quase me cegava

Eu precisava olhar aquele instante

O sol foi embora depois de dias sem aparecer

Meus olhos ainda guardavam aquela luz

 

Foi quando olhei para o lado

E uma visão me fez sorrir

Um bem-te-vi descansando no cume um poste

Uma visão tão cheia de quimeras

Uma beleza, uma riqueza de encantar a alma

 

Não satisfeito em se mostrar tão altivo e belo

Veio pousar no banco onde eu estava

E então nos contentamos apenas na troca de olhares

Que me aliviaram milhões de palavras cansadas

E me fez sentir a calma da vida

 

Depois de um tempo ele se foi

Eu também parti

Quero sempre o silêncio da praça

O banco inerte e calado

Quero esse bem-te-vi…

Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"