Memória, Neve e Fogo

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Por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

A revista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) realiza um resgate histórico sobre o atentado à bomba que abalou a sede da entidade em 1976. Para além de registrar a violência do terrorismo praticado pela extrema-direita no momento em que a sociedade vislumbrava o fim da ditadura, a publicação joga luz sobre um episódio covardemente apagado pela grande mídia contemporânea.

Link para ler a revista da ABI:

https://www.abi.org.br/wp-content/uploads/2026/08/Boletim_ABI_1976_Bomba_na_ABI-13-8-2026-compressed.pdf


Leio a edição da revista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), dirigida hoje presidente Octávio Costa, e o passado me atravessa. A matéria sobre o atentado à bomba ocorrido em 1976 na sede da entidade não é apenas um resgate histórico. Para mim, é um espelho de um tempo em que o fascismo parecia uma hidra indestrutível, cujas cabeças se multiplicavam para sufocar qualquer sopro de liberdade.

"Naquele ano de 1976, completava seis anos de minha vida na União Soviética. O exílio não era uma escolha, era uma imposição da sobrevivência. A ditadura fascista brasileira não se contentava em caçar e perseguir os comunistas. Ela estendia sua sanha vingativa aos seus familiares, às suas crianças, a quem quer que carregasse o sangue ou o sobrenome daqueles que ousavam resistir. Em Moscou, ao lado dos meus familiares e amigos, a distância do Brasil não nos fazia inertes. Organizávamos atos de solidariedade às vítimas do terrorismo de extrema-direita que assolava o nosso país e tantas outras nações. Queríamos cruzar fronteiras, denunciar ao mundo, caminhar pelas ruas da Europa Ocidental. Mas éramos homens e mulheres sem pátria no papel: sem direito a passaporte, estávamos confinados ao espaço geopolítico que nos acolhera, impedidos de viajar para a Europa Ocidental, enquanto o fascismo parecia dominar o horizonte de forma definitiva.”

Policiais cercam a sede da ABI após a explosão - Foto: Carlos Chicarino


Naquele ano de 1976, completava seis anos de minha vida na União Soviética. O exílio não era uma escolha, era uma imposição da sobrevivência. A ditadura fascista brasileira não se contentava em caçar e perseguir os comunistas. Ela estendia sua sanha vingativa aos seus familiares, às suas crianças, a quem quer que carregasse o sangue ou o sobrenome daqueles que ousavam resistir. Em Moscou, ao lado dos meus familiares e amigos, a distância do Brasil não nos fazia inertes. Organizávamos atos de solidariedade às vítimas do terrorismo de extrema-direita que assolava o nosso país e tantas outras nações. Queríamos cruzar fronteiras, denunciar ao mundo, caminhar pelas ruas da Europa Ocidental. Mas éramos homens e mulheres sem pátria no papel: sem direito a passaporte, estávamos confinados ao espaço geopolítico que nos acolhera, impedidos de viajar para a Europa Ocidental, enquanto o fascismo parecia dominar o horizonte de forma definitiva.

"Foi nesse cenário que a notícia da explosão na sede da ABI nos atingiu. Naquele momento, muitos acalentavam a ilusão de que a ditadura dava seus últimos suspiros, de que a transição seria inevitável e próxima. De fato aconteceria, com anistia de 1979.”

A bomba no auditório da Casa do Jornalista, no entanto, veio como um aviso sangrento da extrema-direita: a continuidade da barbárie parecia garantida, e a violência terrorista estava disposta a ir até as últimas consequências para calar a sociedade civil. Por isso, o resgate promovido agora pela ABI é de grande importância. A revista faz aquilo que o jornalismo em sua essência deveria fazer.

Policiais cercam a sede da ABI após a explosão


Por outro lado, causa perplexidade — embora não chegue a surpreender — o silêncio ensurdecedor da grande mídia. É impressionante como os grandes jornais e revistas do país ignoram e não reelembram esse ato terrorista de 1976.

"No fundo, sabemos o motivo desse apagamento sistemático: esses veículos de comunicação desejam apagar da história os nomes das pessoas e das instituições que, no passado e no presente, continuam na linha de frente do combate incansável contra o fascismo. Lembrar de 1976 significa reconhecer quem esteve do lado certo da história e quem preferiu a omissão.

Ato do contra o fascismo no Brasil, Moscou, 1978: Luiz Carlos Prestes Filho entre seus pais, Maria e Luiz Carlos Prestes


A bomba na ABI não conseguiu calar a imprensa democrática na época, assim como o exílio não conseguiu apagar a nossa voz. Folhear a matéria é reafirmar que a memória é uma arma contra contra o fascismo que insiste em assombrar o Brasil de hoje.

Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista