O Estadista Roberto Requião

O Estadista Roberto Requião

O Estadista Roberto Requião e o presidente Lula

logo

Entrevista Roberto Requião

Por Luiz Carlos Prestes Filho

Apoio Manoel J de Souza Neto

Fotografias: Arquivo Claudio Ribeiro; site Roberto Requião; e Digão Duarte

Exclusivo Catetear Notícias

Esta entrevista revela muito mais do que a trajetória de um ex-governador e ex-senador da República. Ela apresenta a visão de um homem público que, aos 85 anos, continua refletindo sobre os grandes desafios nacionais e defendendo um projeto de desenvolvimento soberano para o Brasil. Ao longo da conversa, Roberto Requião expõe suas análises sobre economia, industrialização, infraestrutura, democracia, relações internacionais e o papel do Estado, sempre a partir de uma perspectiva nacional e popular. Requião pertence a uma linhagem rara de dirigentes brasileiros que ultrapassam os limites da política regional para pensar o destino da nação. Sua atuação o coloca na tradição de nomes como Miguel Arraes, Leonel Brizola, Celso Furtado, Florestan Fernandes e de meu pai, Luiz Carlos Prestes, lideranças que combinaram ação política, elaboração estratégica e compromisso com os interesses do povo brasileiro. Governador do Paraná por três mandatos, senador da República e participante de importantes fóruns internacionais, Requião construiu uma trajetória marcada pela defesa das empresas estratégicas, da soberania nacional e da valorização do trabalho.

Roberto Requião ao lado de Hugo Chávez, Jiang Zemin e José Mujica

"Suas fotografias ao lado de líderes como Hugo Chávez, da Venezuela, Jiang Zemin, da China, e José Mujica, do Uruguai, simbolizam o reconhecimento internacional de suas ideias e de sua experiência política. Em uma época marcada pelo pragmatismo eleitoral e pela escassez de projetos nacionais, sua voz permanece singular. A entrevista demonstra que suas preocupações não se restringem à disputa partidária imediata, mas abrangem questões estruturais sobre o futuro do Brasil. Por isso, seria importante que Roberto Requião estivesse presente no Congresso Nacional, em Brasília. Sua experiência administrativa, sua capacidade de formular propostas e sua independência intelectual podem contribuir para elevar o nível do debate político nacional. Aos 85 anos, livre de ambições pessoais de poder ou enriquecimento, Requião reafirma um compromisso que atravessa toda a sua vida pública: a defesa do povo brasileiro, da soberania nacional e de um projeto de desenvolvimento capaz de construir um país mais justo, democrático e socialmente avançado.

Prestes Filho: O Senhor esteve filiado ao Partido dos Trabalhadores e declarou apoio decisivo à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. No entanto, ao longo dessa trajetória, manteve um posicionamento de apoio crítico em relação a certas escolhas econômicas e alianças do governo federal. Qual é o seu balanço atual sobre os rumos dessa gestão e como pretende exercer seu mandato na Câmara dos Deputados diante das pautas do Palácio do Planalto?

Roberto Requião: Eu, no Paraná, fundei o PMDB. Fui um dos principais fundadores e organizadores do partido no estado inteiro. Eu sou o filiado número um do PMDB no Paraná. E eu, no PMDB, era copresidente da Eurolat, Parlamento Europeu-Latino-Americano, copresidente de 45 países. Mas quando vi a possibilidade da estupidez, da tolice, da barbárie representada pelo Bolsonaro ganhar uma eleição no Brasil, eu voltei para o Brasil. E o PMDB estava se transformando num balcão de negócios, com Romero Jucá, aquela gente toda, aquele projeto que eles lançaram e que nem discutiram internamente, e eu resolvi apoiar o PT e entrei no PT para viabilizar no Paraná a candidatura do Lula. Mas eles criaram a Frente da Esperança, uma abertura para viabilizar a eleição do Lula. E essa Frente da Esperança, de certa forma, descaracterizou o que a gente esperava do Lula. O Lula, que se dizia nas reuniões, por exemplo, numa reunião que nós tivemos lá na redação da revista Carta Capital em São Paulo: "Eu sou um presidente socialista", ele se declara hoje um presidente liberal. E o governo dele passou a ser um governo de liberalismo. Ele já tinha vacilado diante da privatização da Vale do Rio Doce, manteve como estava, e nessa Frente da Esperança ele fez uma política absolutamente liberal. De certa forma muito semelhante à do Paulo Guedes, com uma diferença que contraponta a favor dele: foi a sua sensibilidade social, representada pelas políticas compensatórias — as bolsas, bolsa isso, bolsa aquilo. Que são as políticas engendradas pelo liberalismo econômico no mundo para combater a possível esquerdistização dos governos. Lula passou um tempo na sua juventude na Alemanha, convivendo com a social-democracia. Ele aprendeu essas coisas lá. Mas esse é um lado positivo que o Bolsonaro não tem. Então eu diria a você que a política do Lula na Frente da Esperança foi muito semelhante à política bolsonarista.

Luiz Carlos Prestes Filho e Roberto Requião

"O Lula vendeu ações da Petrobras junto com o Gabrielli (José Sérgio Grabrielli) no mercado mundial. Hoje 64% das ações da Petrobras são privadas. Nós temos trinta e poucos por cento na mão do Estado. O Lula não contestou a venda da Vale do Rio Doce e, mais recentemente, no atual governo, ele não enfrentou como deveria a privatização da Eletrobras. Mas, de qualquer forma, naquele momento o Lula era a melhor opção para o Brasil. E eu diria a você que hoje continua sendo a melhor opção. Não é exatamente o Lula tendo a atitude que eu gostaria de um Presidente da República, mas é o possível no momento. Então, o que nos resta é apoiar o Lula como uma espécie de contraposição à barbárie representada por todos os outros candidatos.”

 Prestes Filho: Como o Senhor pretende exercer seu mandato na Câmara Federal justamente diante das pautas do Palácio do Planalto?

 Roberto Requião: Eu, descontente com a visão liberal da política do PT, saí do PT. Hoje eu estou no PDT, que eu espero que tenha uma abertura maior para se colocarem políticas contestatórias ao liberalismo econômico. Eu sou um crítico do governo. Mas eu não sou um militante da direita para contestar tudo e apoiar essa virada totalmente alucinada para o bolsonarismo e essa política macroeconômica voltada aos interesses dos Estados Unidos. Pretendo ser um crítico no governo federal e apoiar o que for positivo. E usar a possibilidade que eu tenha para induzir algumas coisas que o próprio PT na sua base congressual está fazendo, por exemplo, a Terrabras (Terras Raras Brasileiras) que o Lula vetou; a reestatização da Eletrobras.

Lula, Requião Filho e Roberto Requião

"Olha, eu abri a internet ontem e o Alckmin, na presença do Lula, estava assinando um decreto e dizendo que agora a eletricidade no Brasil seria privatizada, que cada brasileiro, empresa, pessoa ou comércio, poderia optar por uma plataforma de eletricidade, como funciona com a telefonia; era o exemplo que eles davam. Mas isso é uma tolice total! Isso existia no Canadá, mas o capital, apossando-se de plataformas, de usinas e de setores, acabou não investindo, porque o capital quer lucro. Eles aumentavam as tarifas, suspendiam o investimento. A Alemanha privatizou a eletricidade, foi um insucesso tão grande que voltou a estatizar. A mesma coisa aconteceu com a França. São observações que eu faço a partir da presidência no Parlamento Europeu-Latino-Americano, e eu percebo que o Lula não enxerga isso. Mas, mesmo assim, é a opção possível nesse processo eleitoral.”

Prestes Filho: Recentemente o Senhor entrou no PDT e declarou que a Câmara se transformou em um mercado dominado pelo fisiologismo. Como sua postulação a deputado federal pretende enfrentar a lógica do orçamento secreto e das emendas parlamentares PIX, que hoje ditam a relação entre o Executivo e o Legislativo?

Roberto Requião: A Câmara Federal é um espaço de administração e fiscalização do Brasil. Mas ela se transformou numa câmara municipal. O orçamento secreto e as emendas transformaram-na num processo eleitoral em que os deputados se elegem com pequenos favores, ao invés de pensar nas políticas nacionais. A Câmara é a câmara do país, o Senado é a representação dos estados. Mas isso foi alterado. As emendas e o orçamento secreto transformaram a Câmara numa câmara de vereadores absolutamente medíocre. Nós temos que trabalhar para modificar esse processo. Inclusive o Lula já colocou no seu programa e nos seus pronunciamentos que ele vai combater duramente isso. Mas eu quero dizer a você: por que a Câmara se transformou numa câmara de emendas e de emendas impositivas? Eu fui senador naquela época. Eu votei contra esse processo de emendas impositivas. Por quê? Porque os parlamentares faziam algumas emendas e só eram contemplados os parlamentares ligados ao Governo Federal, na época do Lula e da Dilma. Mesmo os do PT que não fossem profundamente ligados ao comando do processo de governo não conseguiam emendas. Então, a emenda impositiva surgiu disso: de um erro do governo. Não devia haver emendas no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados. O problema é votar grandes projetos, votar o orçamento da União. Mas transformaram a Câmara Federal numa câmara medíocre de vereadores. Isso tem que acabar no Brasil. Eu vou brigar contra isso.

Prestes Filho: Seu filho, Requião Filho, disputa o governo do estado do Paraná em um embate direto contra o senador Sergio Moro, figura central da Operação Lava Jato e juiz responsável pela condenação do presidente Lula. Qual é o significado político dessa disputa para o futuro do Paraná e para a consolidação da democracia no estado e no país?

Roberto Requião: Eu acho que o significado mais relevante é para o Brasil. O Moro é um farsante na política, ele não é contra a corrupção. Pode parecer incrível, mas eu promovi o Moro no seu início. Eu acreditei que ele era contra a corrupção. Eu viabilizei — através das comissões de que eu participava e das comissões que eu presidia — a ida do Moro duas vezes ao Senado Federal para conversar nas comissões, e coloquei o Moro na TV Senado no país inteiro. Até o momento em que eu descobri que, na verdade, o Moro não tinha nada contra a corrupção. Ele tinha uma aliança com o FBI e a CIA para quebrarem empresas brasileiras. A Odebrecht, por exemplo: tinha corrupto, era claro. Ainda tem hoje muito corruptor e corrupto na estrutura empresarial brasileira e na administração pública. Mas o Moro queria tirar as empresas brasileiras para dar espaço e entrada para as empresas estrangeiras, fundamentalmente norte-americanas. A Odebrecht vencia licitações nos Estados Unidos. Pouca gente sabe, mas ela construiu o aeroporto de Miami. Eu, quando vi que o Moro estava nessa linha, o abandonei completamente e o cobri com o descrédito que ele me proporcionou. Ele não era um verdadeiro combatente da corrupção. Por exemplo: no meu primeiro mandato, eu descobri que o Banco do Estado do Paraná era o principal operador da CC5. As CC5 eram contas de não residentes no Brasil, principalmente no Banestado, em Foz do Iguaçu — embora também existissem em outros bancos, mas lá era o fundamento e o principal elemento desse jogo. Elas eram depositadas pelo dono de uma barraca de cachorro-quente na frente do banco. Bilhões de reais saíram dali, mandados para os Estados Unidos, e ninguém sabia quem mandava. Era o dono da barraca de cachorro-quente, que provavelmente recebia uma gorjeta e nem sabia bem quem tinha mandado. Eu denunciei isso para a Polícia Federal e denunciei também para o Ministério Público Federal. O Moro foi o juiz disso. Ninguém foi punido até hoje. E quando o Castilho, um delegado da Polícia Federal, se encarregou disso, ele resolveu que saberia quem eram os responsáveis indo aos Estados Unidos e verificando não quem tinha mandado - porque quem tinha mandado era o dono da barraca de cachorro-quente -, mas quem recebia. O delegado Castilho da Polícia Federal começou essa operação, e retiraram o Castilho dos Estados Unidos e o trouxeram de volta para o Brasil. Então eu vi que aquilo tudo era uma farsa. E esse dinheiro, fundamentalmente, era produto das comissões e da corrupção da venda de 55 estatais do governo Fernando Henrique Cardoso. Então eu passei a entender o Moro sob esse aspecto: nada contra a corrupção, um oportunista político e com uma cultura relativamente medíocre, mediana. Agora ele foi a Paranaguá e perguntaram o que ele tinha a dizer aos paranaguaras, e ele: "Não, essa tribo de índio tem que ser respeitada, mas ela não pode impedir o desenvolvimento da região." Não existe tribo de índio em Paranaguá. Isso é uma tolice total.

O Estadista Roberto Requião

"O Moro não sabe nem o que é Paranaguá, o segundo principal porto do Brasil. Não tem índio em Paranaguá. Paranaguá é uma cidade portuária. E ele disse que era amigo da Edith Piaf, era admirador da Edith Piaf, e que tem uma "conge". Então é um sujeito com uma precariedade intelectual muito grande, mas, com o impulso que lhe deram a Globo e a mídia brasileira, ele continua ainda conhecido como um combatente da corrupção, o que não é. Então eu acho que nós temos que liquidar esta hipótese. E o meu filho, Maurício Requião, Requião Filho, três vezes mandato de deputado estadual, para se contrapor a esta visão privatizante e liberalizante da economia do Paraná, já que o Moro e o Ratinho são a mesma coisa.”

Prestes Filho: O Senhor é crítico feroz do método da Lava Jato, aponta impactos destrutivos sobre a engenharia nacional e a infraestrutura brasileira. Como a pré-candidatura do seu filho no Estado e a sua em Brasília planejam reconstruir as bases econômicas e institucionais afetadas por aquele período?

Roberto Requião: Esse é o problema básico. Eu vi hoje o Alckmin declarando na internet que nós vamos bater os Estados Unidos na produção de grãos. Produção de grãos, o agro com tecnologia alta, não emprega ninguém, é cada vez mais mecanizado. Além disso, há a inteligência artificial e a inovação tecnológica na indústria. Nós estamos indo para o precipício que afogou a Argentina. O Perón se associou ao agronegócio e compensava a população com a política compensatória, as bolsas em véspera de eleição. Isso funcionou até o momento em que o descaso com a industrialização provocou a falência do Estado e a política compensatória não conseguiu mais ser paga. Isso viabilizou Javier Milei, que é essa barbaridade que governa a Argentina hoje. E nós estamos indo por esse caminho. Eu acho que essa ausência de preocupação com a industrialização, com a soberania nacional... porque o Lula fala em soberania nacional, mas ele mantém a Petrobras com preços internacionais e o combustível com esse preço incrível dentro do próprio Brasil. Não agiu pela estatização da Vale do Rio Doce. E aqui no Paraná, o governo federal, através do BNDES, apoiou a privatização da nossa companhia de energia elétrica, que era a melhor do Brasil. Agora, o BNDES, há alguns meses — dois ou três —, vendeu 1 bilhão e meio de ações da Petrobras. Ao mesmo tempo, o discurso público do Lula é de que nós temos que estatizar a Petrobras. Isso vai nos tirando o entusiasmo, mas, de qualquer maneira, eu insisto: apesar dos pesares, o Lula é a opção que nós temos neste momento. 

Prestes Filho: Os mandatos do Senhor e do seu filho estarão a serviço desta luta da recuperação da infraestrutura nacional?

 Roberto Requião: Vai ser na mesma linha nossa. Eu, particularmente, sou bisneto do fundador do primeiro Partido Socialista do Brasil, o Justiniano de Mello e Silva, um sergipano que deu aulas na Universidade de Córdoba, na Argentina, uma Universidade Católica, e que era um contestador do regime capitalista; propunha a reforma agrária, propunha o fim do direito germano-românico a favor da arbitragem, a favor das mudanças institucionais que o Brasil até hoje reclama. Nós estamos na mesma linha. Nós estamos fazendo política para transformar o mundo.

Durante a ditadura militar Roberto Requião era vigiado pela polícia, por conta de sua militância política em defesa da democracia

"Eu, antes de entrar na política, tinha um escritório de advocacia nacional. Eu tinha empresas em boa parte do Brasil, em vários estados brasileiros, e entrei de cabeça nisso e desisti de tudo na tentativa de ajudar a transformar o Brasil. O meu filho vai na mesma linha. Ele faz política para isso. E se não for para isso, não tem sentido fazer política. Temos que envolver a quinta unidade dialética, que o Lênin nunca levou em consideração, e foi o Stálin quem propôs: a constante mutação dos fatores. O mundo muda, mudam as relações de trabalho, muda a tecnologia, muda o domínio do capital financeiro. Não é mais a exploração do trabalho diretamente, mas é o capital dominando tudo. A dialética continua viva, mas não pode ser exatamente a mesma. A dialética é a dialética.”

Prestes Filho: A aprovação da reforma trabalhista de 2017, do Temer, e a expansão do trabalho por aplicativo fragilizaram historicamente as garantias da classe trabalhadora no Brasil. Quais propostas concretas o Senhor defenderá no Congresso para rever pontos dessa legislação, combater a superexploração da mão de obra e barrar a precarização dos direitos laborais?

Roberto Requião: Eu fui por muito tempo advogado trabalhista quando saí da faculdade. Trabalhava num escritório famoso aqui no Paraná com o Edésio Passos, belo companheiro. Mas, na prática, eu observava que a legislação trabalhista tinha muita barbaridade. Ela podia ser melhorada, alterada, bobagens suprimidas. Mas não foi o que aconteceu. Eles não revisaram a legislação trabalhista, eles eliminaram os direitos dos trabalhadores. E você veja: uma das críticas que faço a esta Frente da Esperança é que ela manteve tudo exatamente como estava. Não houve um movimento para a recuperação do valor do trabalho. Agora vem a história da escala 5x2 e não da 6x1. Não é má, mas ela não é fundamental na mudança das relações de trabalho. Nós temos que restabelecer direitos trabalhistas com muita clareza, senão nós vamos nos transformar numa colônia agroindustrial a serviço dos Estados Unidos. Sem indústria, sem emprego, sem salários decentes e sem garantias. É isso o que está acontecendo.

 Prestes Filho: Cresce no país o debate sobre a redução da jornada de trabalho sem redução salarial e o fim do modelo 6x1. Diante da resistência de setores patronais no Congresso, qual deve ser o papel da bancada progressista para fazer avançar essa pauta do trabalho digno?

Roberto Requião: Essencialmente, essa medida não muda as relações de trabalho no Brasil. Mas como política compensatória para atenuar os danos que o fim da reforma trabalhista ocasionou no Brasil, ela é importante e é necessária neste momento. Essa redução é interessante no momento, mas as relações capital-trabalho, principalmente o capital financeiro, têm que ser revistas de uma forma mais profunda no Brasil e no mundo.

Prestes Filho: A defesa das empresas estratégicas sempre foi uma das principais bandeiras da sua vida pública, como demonstrado em sua oposição às privatizações da Copel, Eletrobras e refinarias da Petrobras. Em um momento de forte pressão rentista, como reverter a entrega de ativos nacionais e garantir que a infraestrutura cumpra a função social?

Roberto Requião: Esclarecendo à população sobre o desastre que é a privatização de uma empresa estratégica. Por exemplo, você privatiza uma empresa de energia elétrica: como é que o setor privado vai se comportar? Ele vai se debruçar sobre os lucros dos acionistas, vai aumentar tarifas, vai diminuir o custo dos funcionários reduzindo salários e demitindo funcionários que dão qualidade ao serviço da empresa — é uma coisa clara — e vai reduzir os investimentos para poder distribuir lucros.

Roberto Requião em três tempos

"A Copel privatizada no Paraná, nos últimos três ou quatro anos, já deu aos acionistas muito mais do que o estado recebeu como pagamento das ações que colocou no mercado, que o Ratinho colocou no mercado. Então isso é um erro simplesmente brutal. E, como eu disse numa pergunta anterior, vejam o que aconteceu na Califórnia, vejam o que aconteceu na França, o que aconteceu na Alemanha com as privatizações: é um erro brutal. E o nosso governo hoje, da Frente Esperança, faz um discurso de crítica, mas na prática está reforçando a privatização.”

 Prestes Filho: O Paraná é uma potência agrícola, mas o modelo focado na monocultura para exportação frequentemente pressiona a produção familiar. Quais mecanismos federais o senhor pretende propor para assegurar a soberania alimentar, o crédito ao pequeno produtor e a regularização de rotas de escoamento sem a cobrança abusiva de pedágios?

Roberto Requião: Nada diferente do que eu já fiz como governador. As cooperativas do Paraná são fortíssimas porque eu sustentei a pequena e média propriedade. Irrigação noturna para aumentar a produção com desconto de 75% numa tarifa de energia elétrica que, no meu governo, já era a mais barata do Brasil. Financiamento de tratores sem juros, mas com correção em cima do custo de produtos agrícolas — o milho, por exemplo, para escapar da ganância dos bancos. Financiamento para compra de produção e de equipamentos. Programas de distribuição de corretivos, de calcário e tudo mais. Favorecimento da utilização de ferrovias no Estado. Criamos uma estrutura de pequenas empresas que viabilizou as cooperativas.

Mas as cooperativas grandes acabam se atrelando ao interesse das multinacionais de venda de insumos estratégicos, que não são alimento para o povo. Eu pergunto a você: você comeu no almoço hoje soja ou milho? É claro que a gente come e gosta até, algumas vezes, mas na nossa mesa raramente isso participa; vai alimentar porcos e gado em outros países do mundo.

Então nós temos que reforçar a agricultura familiar, que tem a diversificação que enche a nossa mesa. Mas o fundamental é reforçar o processo industrial, dar garantias às nossas indústrias. O mundo tem exemplos disso. O Consenso de Washington propôs o liberalismo absoluto. O liberalismo absoluto vai viabilizar o desenvolvimento econômico? Os países que não entraram no liberalismo absoluto têm hoje força de potências, como a China. A Rússia, que entrou, perdeu 50% do valor da sua moeda da noite para o dia. Então nós temos que reforçar a defesa das empresas nacionais e reforçar a estatização das empresas estratégicas, que são necessárias para a sobrevivência, inclusive, das empresas capitalistas que vivem em torno da possibilidade de energia elétrica, de água tratada e tudo mais. Isso é muito claro, nós estamos no caminho errado.

Roberto Requião Senador

"O Lula se declarou outro dia liberal. Para mim foi um susto, porque ele se declarava socialista. Eu disse naquela reunião da revista Carta Capital que ele é "um presidente socialista", garantiu o crescimento inclusive dos bancos e tal. Agora não, agora ele disse que foi sempre liberal. E foi sempre liberal. Eu não estou fazendo isso como uma crítica de desaforo, é a visão dele, está errada. As políticas compensatórias o tornam melhor do que os liberais da linha do Guedes, do Bolsonaro e esse pessoal que vive uma barbárie e não respeita as pessoas. O Lula é melhor, mas o Brasil precisava de um governo melhor que o Lula. E não se apresenta, no momento, em nenhuma perspectiva. Portanto, estou confessando aqui meu voto e meu apoio ao Lula.”

Prestes Filho: Nesse caso, ainda na mesma pergunta, levar essas pautas para a Câmara Federal e ter um mandato de governador do seu filho defendendo essas pautas...

Roberto Requião: Claro, claro. Como eu fiz no Senado. Por exemplo, eu reeditei todas as medidas de reforma do João Goulart no Senado. Morreu tudo, desapareceu, mas eu tomei a iniciativa de colocar em pauta.

Prestes Filho: Observamos internacionalmente a consolidação de dinâmicas neofascistas, marcadas pelo ataque às instituições democráticas, pelo revisionismo histórico e pela extrema violência política. O que explica a ressurgência global do fascismo no século XXI e como a esquerda mundial deve responder a esse fenômeno?

Roberto Requião: Eu acho que isso é anterior. O que nós temos agora é que a política norte-americana continua sendo exatamente a mesma dos ex-presidentes, mas só que tem um porra-louca chamado Donald Trump que proclama isso em voz alta. É a mesma coisa. É o Consenso de Washington impondo o liberalismo a todos os países, quando, na verdade, todos os países mais ricos viabilizaram o protecionismo das suas empresas, da sua tecnologia, até ficarem ricos; e querem impor agora o liberalismo porque eles têm o domínio da tecnologia. O Japão fez isso, os Estados Unidos fizeram isso. E o Trump agora inverte isso.

Roberto Rerquião - compromisso com o povo

"Os Estados Unidos estão numa situação econômica dificílima e o Trump estabelece um protecionismo violento, inclusive com uso militar em favor da economia americana. Nós não podemos cair nessa esparrela. É isso o que defende o Bolsonaro, o que defende o Guedes... os adeptos do liberalismo econômico. Por isso, o Lula é o candidato possível e o melhor que nós temos neste momento.”

Prestes Filho: Quer dizer, para instalar o liberalismo, é necessário o autoritarismo?

Roberto Requião: O liberalismo... o liberalismo é popular. Porque ele é vendido pela mídia, que está na mão dos grandes capitais, como a liberdade, a possibilidade de sair do domínio do Estado opressor. É o liberalismo no Paraná que propõe a privatização do ensino, privatizou a Copel. A nossa Sanepar tem 80% das ações no mercado. E é esta mídia orquestrada pelos interesses econômicos, principalmente os dos Estados Unidos - que não são liberais internamente e claramente agora com o Trump -, que faz o povo se iludir nesse processo. A nossa tarefa é participar da política e tentar esclarecer isso com a pequena mídia que nós temos. Bota pequena nisso!

Prestes Filho: Precisamos de uma grande mídia de esquerda?

Roberto Requião: Isso. Você me disse hoje que está tentando sair das plataformas ocidentais e entrar na chinesa e na russa. Mas você entra, só que ninguém aqui escuta, ninguém usa. "Ah, mas vou fazer um esforço lá". Não adianta nada fazer esse esforço. Quem tem que fazer esforço não são eles, e sim os donos das plataformas.

Prestes Filho: O avanço de projetos ultraliberais e de extrema-direita em países vizinhos da América Latina ameaça os processos de integração regional, como o Mercosul e a Unasul. Qual deve ser o papel diplomático e parlamentar do Brasil para conter essa onda reacionária no continente?

Roberto Requião: O Brasil, na verdade, está propondo o liberalismo econômico, inclusive no Mercosul. Essa integração com o mercado europeu é altamente maléfica para o Brasil. Essa integração acaba com a possibilidade de crescimento industrial. E, lá do outro lado, a França protesta porque o setor agrícola na França tem uma força muito grande do ponto de vista eleitoral. Então, eles protestam. Mas nós precisamos é defender a nossa indústria, não é abrir o nosso mercado sem tecnologia, sem investimento, sem mão de obra para uma competição da qual nós nunca seremos vencedores com o mercado europeu. Nós temos que cuidar mais do Brasil. Acho um erro absoluto. Eu, o Samuel Pinheiro Guimarães...

Lindbergh Farias, Roberto Requião e Osmar Dias

"Eu fui presidente do Parlamento Europeu-Latino-Americano, fui presidente da seção brasileira do Parlatino e do Parlasul, nós brigávamos contra isso. Mas agora isso veio como a solução do Brasil, na voz liberal do Lula e do Alckmin. Que devia ser, como ministro da Indústria e Comércio, defensor da indústria e do comércio, e não da absolutização do agronegócio.”

Prestes Filho: Ainda nessa pergunta, já que o Senhor fez parte da construção do Mercosul e da Unasul: o que mudou?

Roberto Requião: Aconteceram retrocessos, não avanços. Com o governo do Lula e a Frente da Esperança é a mesma coisa do período anterior. Havia uma resistência muito grande no Itamaraty; o Samuel Pinheiro Guimarães e alguns embaixadores entendiam isso. Mas, de repente... Você viu a Globo falar alguma coisa contra essa abertura do Brasil a uma concorrência industrial na qual ele não tem nenhuma chance de vitória ou de desenvolvimento? Não. É canção liberalista cantada em prosa e verso pela nossa mídia.

Prestes Filho: Hoje as redes sociais tornaram-se o principal vetor de propagação de discurso do ódio e de fake news articuladas pela extrema-direita global. De que forma o Congresso Nacional deve legislar para regular as grandes plataformas digitais sem incorrer em censura, preservando a liberdade de expressão e a segurança democrática?

Roberto Requião: Na ausência absoluta do Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal está fazendo alguma coisa. Mas o que nós precisamos é mudar a composição do Congresso Nacional, que não é nacionalista, não pensa em soberania e se transformou num mercado financiado por grupos econômicos que têm interesse nessa liberalização contra os interesses nacionais.

Prestes Filho: Por três vezes governador e senador pelo Estado, o senhor conhece detalhadamente as demandas do Paraná. Quais serão as prioridades orçamentárias e contratuais que o Senhor pretende exigir do governo federal para o desenvolvimento regional paranaense?

Roberto Requião: O Paraná precisa de apoio para a retomada da industrialização. No meu governo, por exemplo, eu constitucionalmente criei o maior orçamento do país em educação. Eu subi de 25% para 30%. O Paraná é o único que tem esse orçamento. O fundamental é isto. Agora, tem que acabar com essa história de mendicância. O deputado vai para lá e, em vez de ele pensar na reindustrialização do estado, em uma política de emprego, de descentralização e de intensificação da saúde e da educação, ele compra uma ambulância. Para colocar uma ambulância em um posto de saúde que não tem equipamento nem médico para funcionar. Tem que acabar essa farsa das emendas parlamentares. E os investimentos têm que ser para projetos globais que o Estado reclame. Industrialização, por exemplo. Eu fui governador e fiz o que pude, mas o Estado tem limitações constitucionais. Eu não emito moeda. Não mando na economia. Mas, mesmo assim, por exemplo, no empréstimo consignado eu estabeleci que o Estado do Paraná só aceitaria o empréstimo consignado com o juro baixinho que eu estabeleci, não o juro que os bancos queriam. Acabou isso. Eu saí, mudou tudo. Os bancos passaram a cobrar juros absurdos no consignado e, hoje, no Paraná, esse negócio do Banco Master é claro. O Banco Master emprestou dinheiro, tomou dinheiro dos funcionários públicos. O Estado não toma posição por quê? Porque o Estado foi quem facilitou ou, muito provavelmente, participou disso. O atual.

Prestes Filho: Que tipo de benefícios são possíveis? Porque tem a questão de benefício fiscal, tem fundo, tem fundo de compensação... Para essa questão da reindustrialização e os fundos para o Paraná?

Roberto Requião: Os benefícios são conhecidos. Por exemplo, a isenção de imposto é um benefício para o desenvolvimento econômico. Se você tem uma empresa que detém uma tecnologia e uma capacidade de produzir não conhecida no estado ou no país, você pode isentar essa empresa, por exemplo hoje, de ICMS. Para que ela venha, instale-se e divulgue esse tipo de tecnologia para o conjunto da sociedade e crie um outro ramo de desenvolvimento econômico. Mas o que é que o Paraná fez? O Paraná até este ano, por exemplo, já deu 21 bilhões de reais de isenção fiscal. Para quem? Para empresas que muito provavelmente pagaram propinas ou pagam campanhas eleitorais. Não tem nenhum sentido isso. E 21 bilhões podiam ir a 25 bilhões até o fim do ano. É mais de 25% do orçamento do Estado. Portanto, o Paraná não pode dar aumento a professores, não pode dar aumento para policiais de baixo escalão, mas deu aumento para o Ministério Público e deu aumento para o Judiciário, para tapar a boca dessa gente. E tapou a boca com toda a clareza. E faz uma despesa brutal em comunicação, para vender a história do Paraná crescendo, que não existe. O governo Ratinho em 8 anos construiu a ponte de Guaratuba — bonita a ponte — e fez o engordamento da praia de Matinhos. A ponte de Guaratuba, nas suas entradas e saídas, já está demolida, a água está entrando e batendo, e o engordamento de Matinhos o mar já levou. Mas custou centenas de milhões tudo isso. Mas é este o jogo da publicidade com o apoio da mídia. E a mídia do Paraná é muito específica. O Ratinho parece que tem 80 rádios aí, algumas delas, talvez 17 ou 18 próprias, e o resto em convênio. E tem uma televisão que é do pai, e as outras duas televisões recebem fortunas. E a do pai recebe também. Então não há espaço para a crítica. Se você der uma analisada nas pesquisas de opinião, o Ratinho diz que tem mais de 80% de apoio. É verdade, eu tinha 83,6% em um determinado momento. Mas o meu apoio era ótimo e bom na maioria. E o regular, que não é - há uma contradição absoluta -, era pequenininho. O Ratinho tem mais regular do que ótimo e bom. Quando ele dizia que seria candidato ao Senado, saía com 37%, não era com 82%. Então isso tudo mostra por que ele recuou. Agora, eu acho que basicamente ele recuou porque o Paraná está quebrado. Por que o Paraná está quebrado? Na campanha, o Ratinho dizia que jamais venderia uma empresa estratégica, que a Copel era fundamental para o Paraná, e ele assumiu o governo. Daí, junto com um secretário que ele nomeou, que era deputado federal - se não me engano, Ricardo Barros -, eles criaram as isenções fiscais. Quatrocentas empresas não estão pagando ICMS. São milhares as que existem no Paraná, por que só 400? Se você quer dar um benefício, dá para todo mundo ou dá estrategicamente para empresas que tragam um benefício social. Em determinado momento, com 25% do orçamento comprometido com isenção, ele ficou sem dinheiro. Então a saída dele foi vender as empresas públicas. Começou vendendo a Copel. Deputados que no meu governo me apoiaram quando eu sustentei a Copel e briguei no Tribunal Arbitral de Paris para recuperar a usina de gás de Araucária que tinha sido privatizada mudaram de opinião e declararam: "A situação mudou." O que mudou foi a falta de dinheiro para a corrupção política comum, a graninha, o favorzinho para um determinado setor. Então o Ratinho está privatizando o Estado para pagar a folha. Provavelmente, dizem os analistas - é uma coisa que tem que ser investigada, mas me parece muito lógica, fui governador três vezes, embora não tenha acesso aos dados que são secretos hoje -, ele não paga o décimo terceiro e não paga o salário de janeiro do funcionalismo.

Prestes Filho: Durante sua gestão no governo do Paraná, o Senhor adotou medidas de isenção e tarifas reduzidas para energia e água voltadas às populações de baixa renda. Como transpor essa visão de serviços essenciais como direitos, e não mercadorias, para o âmbito da legislação federal?

Roberto Requião: A oposição liberal dizia que, quando eu dava uma isenção para uma família de baixa renda em energia elétrica, estava fazendo com que os outros pagassem. Não é bem assim, você tem que ter uma visão holística do governo. Uma família pobre, favelada, sem água e sem energia elétrica fundamentalmente, vai pegar uma pneumonia no inverno curitibano, uma doença, não vai poder tomar um banho quente, vai pegar uma gripe. Isso vai custar muito mais caro para o Estado na saúde. Então, na verdade, do ponto de vista holístico, eu estava diminuindo a despesa do Estado. E a finalidade de uma empresa pública não é aumentar o lucro dos acionistas, é resolver o problema social, a falta de energia que impulsiona o desenvolvimento econômico. Isso vale para água, vale para energia elétrica, vale para pedágio. E eles inverteram isso. Transformaram esses produtos estratégicos em mercadoria privada, que é o que pretende fazer agora o Alckmin anunciando que a energia será fornecida por plataforma, ou seja, de uma miríade de grupos empresariais que investem para ganhar dinheiro, e não para desenvolver o país.

Prestes Filho: E nessa visão de levar isso a Brasília, numa outra posição, o que pode ser feito?

Roberto Requião: Pode ser feita a briga pela manutenção das estatais, pela limitação do lucro. A Petrobras hoje é 64% privada e está vendendo petróleo por um preço absurdo, mas não está processando o petróleo no Brasil, está vendendo in natura, tendo lucros simplesmente fantásticos para quem? Para os acionistas. É um erro brutal isso. Nós temos o exemplo da Noruega, que estatizou aquilo tudo e tem uma renda per capita fabulosa, uma situação maravilhosa das possibilidades do Estado nos programas sociais de saúde, de educação e tudo mais. Até no futebol eles estão bem.

Prestes Filho: O agronegócio e a indústria enfrentam o desafio premente das mudanças climáticas, manifestadas em secas e enchentes recorrentes na Região Sul. Como conciliar a defesa da soberania econômica com uma agenda rigorosa de preservação ambiental e transição energética justa?

Roberto Requião: O agronegócio já está tomando consciência de que, se não houver uma política de preservação ambiental, vai acabar o agronegócio. Vai chegar um momento em que não se planta mais nada e a humanidade vai desaparecer da face da Terra. E, além disso, precisa de uma fiscalização forte contra o fim do reflorestamento e políticas pontuais de conscientização feitas pelo Estado. Mas o fundamental para resolver isso tudo é a educação pública que incuta, na cabeça da população, os raciocínios claros pela importância da preservação ecológica.

Prestes Filho: Ainda nessa pergunta, senador: e todo esse processo que houve de criação da legislação ambiental brasileira, que teve na época o representante do PCdoB como ministro, o Aldo Rebelo, e o Luiz Henrique da Silveira? Como o Senhor viveu esse processo, que falhas ele tem e o que seria necessário para realmente isso avançar de uma maneira positiva na sua visão?

Roberto Requião: Uma visão marxista equivocada. Invertida. Eles partiram do princípio de que o homem tem que dominar a natureza de forma absoluta e esqueceram que a natureza mantém a humanidade e as espécies vivas. E esse erro está sendo visto com toda clareza hoje. O Brasil não tinha esse tipo de fenômeno climático; hoje tem a cada momento. O mundo não tinha, mas nós tivemos agora na Venezuela, na Colômbia e em Granada, na Espanha, ao mesmo tempo. Cataclismos do solo, placas se movimentando e a falta absoluta de preservação das florestas, que garantem a oxigenação e regulam o clima. Nós temos que entender isso, senão vai ser um desastre. Eu não entendo como o Aldo entrou nesse desastre. Mas ele ajudou com a priorização que fez dos interesses econômicos no Código Florestal.

Prestes Filho: Dá para fazer algumas reversões, melhorias?

Roberto Requião: Dá. Dá para mudar isso tudo, mas precisa ter consciência política.

Prestes Filho: A divisão do campo progressista em eleições estaduais frequentemente abre espaço para a vitória da extrema-direita. Diante das divergências programáticas do passado e das alianças do presente, como o Senhor avalia a capacidade da esquerda brasileira de construir uma frente ampla coesa e duradoura nas urnas e nas ruas? A luta pelo socialismo é uma bandeira?

Roberto Requião: Claro que é uma bandeira. Evidente que é uma bandeira, levando em consideração sempre a constante mutação dos fatores. Não pode ser uma adesão de Bíblia, de textos antigos dos movimentos maravilhosos do comunismo e do socialismo no mundo. Tem que ser lido... O Marx pensaria de uma forma um pouco diferente sobre as relações de capital e trabalho se entendesse, se vivesse agora com o avanço da tecnologia, esse avanço do capital financeiro, essa coisa toda. Mas nós temos que entender isso, e eu não sei como. Eu fiz três governos progressistas no Paraná. Como governador, tive apoio de deputados na Assembleia Legislativa e tudo isso. Mas como eu cortei a brincadeira das emendas e combati duramente a corrupção, de repente, perdi a minha bancada. A bancada do PMDB não tem hoje nenhum deputado que tenha consciência política. Todos apoiaram a venda da Copel, a venda da Sanepar, o pedágio — que é um verdadeiro roubo no Paraná. Apoiaram o Ratinho, essa política terrível. Por quê? Porque há distribuição de valores, a graninha abundante nos orçamentos como emenda, presentinhos para prefeituras, falta absoluta de fiscalização. O dinheiro que o Ratinho adquiriu com a venda de ativos públicos, o que a corrupção fez com isso, que cuide o Ministério Público e a Polícia. Agora, o dinheiro que sobrou foi para comprar prefeitos com financiamento de asfalto de ruas no município, porque não tem projeto, não tem fiscalização e o dinheiro simplesmente desaparece, sem nenhum sentido. Não tem a visão holística, não tem um projeto de desenvolvimento do Estado. Ou seja, não tem governo, tem um processo de propaganda exclusivo.

Prestes Filho: As forças progressistas conseguem reagir a níveis regionais nessas eleições?

Roberto Requião: O problema, basicamente, é quais são as forças progressistas. Eu não me sinto à vontade para falar sobre isso. O PCdoB não apoiou, na Câmara, a eleição da picaretagem que tomou conta, com toda a clareza? "Ah, nós precisamos sobreviver como partido." Não é mais mudar a visão do Brasil sobre o desenvolvimento, a valorização das pessoas, mas é aceitar a supervalorização do capital e a subestimação das pessoas. Nós tínhamos que ter, de certa forma, veículos que veiculassem a crítica mais clara sobre isso. Eu vivi isso; como disse a você, meu bisavô fundou o Partido Operário, o primeiro Partido Socialista do Brasil. E ele propunha mudanças fundamentais no Direito, a questão do tabaco, o direito romano-germânico, como eu disse já na entrevista. Ele propunha reforma agrária. E isso tudo acabou, não tem pensador mais, está todo mundo dentro do quadradinho. Você vê economistas: eles trabalham no modelo liberal, porque só dentro desse modelo eles vão conseguir empregos e salários. Então eles propõem uma medida compensatória: "O povo está passando fome? Ah, põe a Bolsa Pipoca, agora é a Bolsa Amendoim." Mas não vão à origem do problema da exploração do trabalho e da exploração do imperialismo sobre o Brasil.

Rpberto Requião apoia: Lula presidente!

"Então, é a grande discussão: projeto de soberania. Mas o projeto de soberania com o liberalismo econômico e a submissão absoluta da economia, transformando o Brasil numa fazenda de produção de commodities, não vai a lugar algum. Falta uma visão global, está faltando o raciocínio. Então, se fala em forças progressistas... Eu estou tendo dificuldade para identificar essas forças. Embora você tenha partidos que têm uma inclinação mais social: amor, fraternidade, soberania, mas de uma forma subjetiva. Objetivamente, eles acham que têm que apoiar a privatização da eletricidade porque o Alckmin assim quer. E não é o Alckmin que quer.”

Prestes Filho: Existe muita crítica de que os partidos de esquerda deixaram de falar com a população, com a base, de fazer esse trabalho de base e falar com a população.

Roberto Requião: Eu não concordo. Eles deixaram de pensar, não de falar.

Prestes Filho: E como enfrentar a extrema-direita nesse caso?

Roberto Requião: É que não são mais de esquerda, acabaram. São partidos que querem participar do modelo. Participar do modelo, conseguir algumas eleições, alguns deputados, alguns salários de parlamentares ou cargos na estrutura. Está faltando uma proposta. Nós estamos sem proposta de desenvolvimento nacional no Brasil. Então, quando você me diz "partidos de esquerda", eu te pergunto: qual é o partido de esquerda que tem uma proposta de desenvolvimento nacional? O Lula não tem. O Lula não tem. Qual é o que tem? "Ah, nós temos que sobreviver como partido, então vamos nos aliar ao Eduardo Cunha, ao fulano, ciclano, para conseguir um espaço no Congresso e botar mais meia dúzia de assessores bem pagos." Acho que esse é o problema, falta o projeto. Os partidos têm que se dedicar ao projeto. E não é o projeto da Frente Esperança, que abriu o leque da social-democracia do Lula - que já existia e tinha sensibilidade social -, abriu esse leque para a extrema-direita e fez um governo...

Lula, Roberto Requião e Gleisi Hoffmann

"Qual é o ministro realmente progressista no governo atual hoje? Conhece algum? Não tem. E não tem projeto. Até o Haddad numa entrevista reclamou que fez um projeto de desenvolvimento nacional e que o conselho do Governo Federal não aceitou. Ele não fala no Lula; ele disse que o conselho do governo da Frente Esperança não aceitou. Então é esse o problema. Nós não estamos pensando, estamos dentro dessa visão liberal. O liberalismo econômico conserta tudo, enquanto o Trump, que é o presidente do país do liberalismo, vai num sentido completamente diverso, mandando o liberalismo às favas e tentando restabelecer a produtividade dos Estados Unidos. É isso o que ele faz. Igual aos outros, só que ele fala mais que os outros.”

Prestes Filho: Então o enfrentamento à direita sem uma volta a uma base socialista, ou seja, sem se diferenciar de fato, acaba inviabilizando a diferenciação de projetos?

Roberto Requião: É, eu nem vi falar nesses termos que já foram estigmatizados na sociedade. "Você é comunista, você é socialista..." Você tem que pensar o Brasil globalmente, com os exemplos do mundo! Os exemplos dos modelos socialistas, sociais-democratas, os exemplos da China. A China é comunista? Não é! Mas tem princípios dialéticos. O que é que a China fez, por exemplo, com a energia? Ela criou a energia solar. Mas ela detém numa empresa pública o domínio da tecnologia, a produção e o fornecimento de transformadores e painéis solares. A China tem 1 bilhão e meio de habitantes. Você acha que ela ia fazer uma companhia para fornecer energia para 1 bilhão e meio de habitantes? Ela liberou na base. Ah, ela capitalizou na base? Não. Um chinês que tem algum sucesso econômico pode montar uma empresa de painéis solares e vender energia. Mas qualquer outro do lado dele — um sindicato, a prefeitura, um outro cara — pode fazer a mesma coisa. Então estabeleceu uma concorrência que não tem acesso ao domínio da tecnologia dos painéis e dos transformadores. É um modelo bacana. Mas nós não. Nós estamos entregando o sistema elétrico de distribuição, da Eletrobras, da Copel. A Copel está vendendo tudo. Ela está vendendo usinas, quer ficar com o esquema de distribuição. Ela fica dona sem precisar investir em usina, administrar usina e tudo mais. Isso é um crime! E o preço será o do mercado. Como é o preço do mercado? Igual ao da Califórnia, que quebrou e apagou os Estados Unidos inteiros porque fornecia para muitos outros estados. São erros fundamentais que nós estamos cometendo de novo. Parece que eles não enxergam nada disso. Falta um projeto de desenvolvimento soberano do Brasil. Isso não é ódio ao estrangeiro nem nada, mas é... Um governo existe para quê? Para melhorar as condições do seu povo. Eu não falo em desprezar outros povos, impedir imigração...

"Nós somos um país de imigrantes! Nós temos mais africanos que a África hoje. Nós temos judeus que não acaba mais, a Argentina tem um pouco mais que nós. Nós temos portugueses; maior quantidade de portugueses no mundo depois de Portugal. O que nós temos de árabes é maior que os árabes de muitos países árabes juntos! Então, nós temos um espaço maravilhoso para ter um desenvolvimento bacana respeitando as pessoas. E é isso que nós não estamos conseguindo. "Ah, o que é que a esquerda vai fazer?" A esquerda deixou de existir. Claro que existem alguns pensadores e tudo, maravilhoso, mas como organização, como instrumento orgânico de mudança e de disseminação de princípios, nós estamos falidos.”

Prestes Filho: A candidatura do seu filho e a sua representam um projeto de desenvolvimento nacional?

Roberto Requião: Claro! Se não for isso, não temos o que fazer. Nem precisava ser candidato. Agora, nós temos que ver as circunstâncias. Eu, em algumas pesquisas, sou o mais votado para o Senado da República, disparadamente na frente do Álvaro Dias, dessa gente toda. O Álvaro agora negociou a sua desistência, não sei como. Não sei se foi por compra, por doação, por venda, por prestação, mas saiu fora. Pode ser até por orgulho de não querer entrar no jogo vil da corrupção. Mas, porém, todavia, contudo, se eu for candidato... O Senado vai eleger o senador nos acordos com os estaduais e federais nas dobradas. E o pessoal com muito dinheiro, dinheiro do Estado dando para prefeituras, Câmaras Municipais e empreiteirinhas, e o pessoal dos fundos partidários monumentais, eles vão financiar a campanha de deputados federais e estaduais, e eu saio na frente e acabo perdendo. Porque eu não tenho possibilidade econômica para isso, e se tivesse não faria isso, por uma questão moral.

Prestes Filho: Então a sua proposta é essa, ir como candidato a deputado federal.

Roberto Requião: Deputado federal, se der. Estou aí. Eu fui governador três vezes, dei de mim o que podia. Eu acabei com uma aposentadoria de R$ 3.900 por mês nesses últimos anos, porque não tinha aposentadoria de deputado estadual, nem federal, nem senador, nem governador. Agora, há dois meses, o Gilmar Mendes mandou me pagar uma verba que os governadores do Brasil inteiro recebem e que eu era o único que não recebia. Então mês passado eu recebi um valor. Igual ao dos meus... Os meus vices recebiam, eu não!

Prestes Filho: É um direito!

Roberto Requião: Para mim é uma maravilha. Meu almoço está pago já. É uma grana boa, não é uma fortuna, são uns R$ 28 mil por mês.

Entrevistador: Eu sei que o Senhor fez muito pelo Paraná. Eu acompanhei pelo menos as décadas mais recentes.

Roberto Requião: Eu tenho uma tradição familiar, uma formação política, rapaz. Eu durmo bem. Sei que joguei a minha vida nisso. A vida é curta, mas eu dei continuidade à luta socialista dos meus avós, do meu pai. Mas não quero falar disso mais, os termos estão estigmatizados. É a prática que define. A prática é o critério da verdade, não é o discurso nem a palavra. Nem discurso nem a palavra: "Ah, eu sou socialista, mas quero vender a Copel"; "Eu sou socialista, mas sou contra a jornada de 5 por 2". Embora a jornada seja compensatória, a exploração pode continuar igual. Não baixa o salário agora, e daí? Baixa depois! Baixa amanhã, baixa para o novo empregado. Mas é bom. Agora é bom. Eu zerei os impostos no Paraná para a pequena empresa. É a proposta do Maurício: se ele quiser zerar... Eu zerei para as micro e diminuí para as pequenas. O Maurício quer diminuir para as pequenas todas, as micro e pequenas. E é possível, porque mudou a legislação, em 2030 acaba o ICMS, então ele aproveita esse período de tempo para dar uma mexida na economia de base. E sete de cada dez empregos são de pequenas empresas.

Entrevistador: Quer aproveitar para comentar algumas propostas principais do Requião Filho?

 Roberto Requião: Não. É com ele, não é comigo. Os filhos desafiam os pais, né? Eles são mais inteligentes e tal. Ele está muito bem, o garoto, bem preparado e tudo. Mas eu lembro, quando tinha 17 anos, comecei a estudar...

Maristela ao lado do marido e companheiro, Roberto Requião

"Eu era rato de biblioteca, passei a minha vida na Biblioteca Pública estudando, lendo. E meu pai me mandou fazer uma viagem à França. E eu achava que meu pai estava superado, imaginava: "Eu sou o rei da cocada." Daí cheguei lá, e uma tarde fui numa livraria do grupo Planète, que era do Fernand Braudel e do Jacques Genevier, dois intelectuais monstruosos na França. Olhei os livros deles e tal, e de repente olho na prateleira: tinha cinco, seis livros do meu pai que eu não sabia que ele escrevia e que tinha publicado na França! Eu vi que eu era um imbecil.”

Prestes Filho: Você reside nesta casa faz quantos anos?

Roberto Requião: Ah, é. Essa casa eu comprei há 46 anos, através do programa do BNH. Daí, com o tempo, nesses 40 anos eu fiz mais um andar em cima e fiz a garagem. Nunca quis mais que isso. E hoje, seguramente, aquela estátua que você está vendo ali, que ganhei da China, vale mais que a casa. É mármore aquilo. É uma estátua clássica chinesa. Imagina o tempo para fazer aquilo.

Prestes Filho: A sua casa reflete sua vida!

Roberto Requião: Minha prática reflete a minha vida! É a de tentar mudar o mundo! Continuo trabalhando para a mudança. Para quê? Para mudar a sociedade para melhor. Mas já estou com 85 anos, rapaz! Para que é eu desejaria hoje ter dinheiro, fama e cargo? Desejo é mudar alguma coisa! Fazer avançar o Brasil!

Manoel Neto, Luiz Carlos Prestes Filho e Roberto Requião