A Coluna Prestes passa e o povo responde

A Coluna Prestes passa e o povo responde

Medalha Luiz Carlos Prestes

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Por Levon Nascimento

Exclusivo Catetear Notícias

Há acontecimentos que não pertencem apenas ao passado. Eles permanecem, insistem, atravessam o tempo e retornam, não como repetição, mas como memória que se recusa a desaparecer. A passagem da Coluna Prestes pelo Norte de Minas Gerais, entre os dias 19 e 29 de abril de 1926, é um desses acontecimentos. Não se trata apenas de um episódio histórico, mas de uma marca profunda inscrita no território, na experiência e na consciência de um povo que, mesmo sem registros escritos, jamais deixou de lembrar.

A entrega da Medalha Luiz Carlos Prestes lotou a Câmara Municipal de Taiobeiras, Estado de Minas Gerais

Cem anos depois, o que vimos no Alto Rio Pardo, uma das microrregiões norte-mineiras, não foi uma simples comemoração. Foi um reencontro. Um reencontro entre a história e aqueles que a viveram – ou que a herdaram como memória transmitida, narrada, preservada. E é desse lugar, dessa travessia entre o vivido e o interpretado, que nasce o livro"A Coluna Prestes nos Gerais de Minas"A obra não nasceu apenas da pesquisa acadêmica. Nasceu, sobretudo, da escuta. Da escuta dos mais velhos, das narrativas que atravessaram gerações, dos relatos simples e profundos de pessoas que conheceram esse episódio não como “Coluna Prestes”, mas como “a revolta” ou “o tempo dos revoltosos”. Foi essa distância, entre o saber formal e a experiência vivida, que me inquietou profundamente e me levou a organizar o livro.Havia, ali, um hiato histórico: o Brasil que estudava a Coluna não era o mesmo Brasil que a viveu. E foi preciso construir uma ponte.

"Para isso, reuni um conjunto plural de autoras e autores – professores, pesquisadores, educadores, escritores, militantes da memória – que aceitaram o desafio de revisitar a Coluna Prestes sob múltiplas perspectivas. São vozes diversas, com formações distintas, mas unidas pelo compromisso com a memória e com o território. São elas e eles: Leleco Pimentel, Padre João Carlos Siqueira, Fabiano Alves Pereira, Joandina Maria de Carvalho, Lídio Barreto Filho, Luiz Eduardo de Souza Pinto, Márcia Sant’Ana Lima Barreto, Maria de Fátima Magalhães Mariani, Milton Pena Santiago, Mônica Rodrigues Teixeira, Pedro Abder Nunes Raim Ramos, Sidney Batista Azevedo, Silvânia Aparecida de Freitas e Vladimir Mendes Patrício, compondo um verdadeiro mosaico interpretativo da Coluna em sua dimensão histórica, social e simbólica. Registre-se, ainda, a presença singular da jovem taiobeirense Julia Marques, artista responsável pelo desenho “Os revoltosos em Taiobeiras”, que ilustra a capa do livro e traduz, em linguagem visual, a memória viva desse acontecimento.”

Luiz Carlos Prestes Filho e Joandina Maria de Carvalho, autora do livro "A Coluna Prestes em Condeúba" e uma das autoras do livro "A Coluna Prestes nos Gerais de Minas" organizado por Levon Nascimento

Esse esforço coletivo só foi possível graças a apoios culturais fundamentais, especialmente do Deputado Federal Padre João (PT) e do Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT), cujas trajetórias políticas se articulam diretamente com a defesa dos direitos do povo, da cultura popular e da memória histórica . Trata-se, portanto, de uma obra que nasce da convergência entre compromisso intelectual e compromisso social.

"As ações do centenário também alcançaram o espaço institucional, sem perder sua essência popular. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, realizou-se audiência pública solicitada e coordenada pelo Deputado Estadual Leleco Pimentel, ocasião em que o livro teve seu pré-lançamento. Foi um momento de grande significado político e simbólico. Ali, o sertão deixou de ser apenas objeto de estudo para se afirmar como sujeito histórico. A memória do Norte de Minas, tantas vezes invisibilizada, ocupou a tribuna, dialogou com as instituições e reivindicou seu lugar na narrativa nacional.”

O deputado federal Padre João, Luiz Carlos Prestes Filho e o deputado estadual, Leleco Pimentel

Em todos esses momentos, a presença de Luiz Carlos Prestes Filho conferiu uma densidade singular às comemorações. Sua participação não foi apenas representativa, mas profundamente significativa. Ao percorrer o Alto Rio Pardo, ao dialogar com o povo, ao compartilhar reflexões, ele estabeleceu uma ponte viva entre passado e presente.

"Em uma de suas falas mais marcantes, afirmou que “o povo brasileiro tem memória e reverencia os seus heróis e os seus antepassados”. Essa afirmação, simples e poderosa, sintetiza o espírito do centenário: a recusa ao esquecimento e a afirmação da memória como ato de resistência. Sua presença, portanto, não apenas homenageia Luiz Carlos Prestes. Ela reafirma o sentido histórico da própria Coluna e sua permanência no imaginário popular.”

Luiz Carlos Prestes Filho entrega a Medalha Luiz Carlos Prestes a Levon Nascimento

O lançamento oficial do livro, realizado em 18 de abril de 2026, na Câmara Municipal de Taiobeiras, foi mais do que um evento cultural. Foi um verdadeiro ato popular de memória. A presença expressiva da comunidade evidenciou isso. Professores da educação pública, estudantes, movimentos sociais, escritores, lideranças comunitárias, representantes de toda a microrregião do Alto Rio Pardo – e também de municípios baianos como Condeúba e Cordeiros – ocuparam o espaço e deram ao evento um caráter profundamente coletivo. Não se tratava apenas de lançar um livro. Tratava-se de devolver ao povo uma parte de sua própria história.

A Coluna Prestes na arte de Júlia Marques, capa do livro "A Coluna Prestes nos Gerais de Minas"

Nesse mesmo espírito, foi instituída a Medalha Luiz Carlos Prestes. Diferentemente das honrarias oficiais, ela não nasce de um decreto estatal, mas de uma decisão coletiva dos próprios autores da obra. Trata-se de um gesto simbólico e político: reconhecer aqueles que, ao longo do tempo, mantiveram viva a memória da Coluna – professores, lideranças populares, guardiões da memória, agentes culturais, estudantes e militantes sociais. Ao fazê-lo, afirmamos que a memória não é propriedade do Estado. Ela pertence ao povo.

"As ações do centenário não se encerram nesses eventos. Elas seguem em movimento. O Deputado Federal Padre João já propôs a realização de uma audiência na Câmara dos Deputados, em Brasília, ampliando o alcance nacional desse debate e reafirmando a importância histórica da Coluna Prestes. Da mesma forma, Luiz Carlos Prestes Filho apresentou ao prefeito de Taiobeiras a proposta de instalação de um Obelisco da Coluna Prestes, concebido por Oscar Niemeyer, como marco de memória e instrumento de fomento ao turismo histórico regional. Trata-se de uma iniciativa que articula cultura, história e desenvolvimento, projetando o passado como elemento ativo do presente.”

Talvez o aspecto mais significativo de todo esse processo seja este: as homenagens ao centenário da Coluna Prestes no Norte de Minas não são oficiais. São populares. E isso não é um detalhe. É o seu fundamento. Foi o povo que viveu a Coluna. Foi o povo que guardou sua memória. E é o povo que, agora, a devolve à história. Cem anos depois, a Coluna ainda passa. Não mais com tropas, armas ou estratégias militares, mas com memória, consciência e luta. Ela passa quando um estudante pergunta. Quando um professor ensina. Quando uma comunidade se reconhece. E passa, sobretudo, quando o povo decide que sua história não será esquecida. Porque há coisas que não se apagam. Apenas esperam o tempo de voltar.

Levon Nascimento é professor de História e organizador do livro "A Coluna Prestes nos Gerais de Minas".