Os Estados Unidos e nós
O Saci enfrenta o Tio Sam

Os Estados Unidos e nós
Por Ivan Alves Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Os Estados Unidos exercem um fascínio sobre setores importantes das classes dominantes brasileiras, e isso desde pelo menos o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o poderio norte-americano se firmou no plano internacional e, muito particularmente, no Brasil. A ponto de a máquina bélica dos Estados Unidos ameaçar invadir o nosso país, em abril de 1964. De certa forma, os Estados Unidos substituíram primeiramente Portugal e, depois, Inglaterra e França como modelos para as classes dominantes do país. Por aqui, a modernização da sociedade virou quase sinônimo de americanização da vida.
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"Não passava pela cabeça de muitos integrantes desse sistema que a chave para a entrada na modernidade poderia estar no povo, da cidade ou do campo. Homens como Rondon, Prestes, Euclides da Cunha, Edison Carneiro e Oscar Niemeyer parecem ter compreendido isso, mas as classes dominantes não lhes facilitariam muito a vida. A Semana de 22, as escolas de samba, a bossa-nova e a arquitetura de Brasília devem seu surgimento a essa capacidade de o Brasil produzir sínteses e de marchar para o moderno a partir de sua própria realidade. ” |
A nova Capital do Brasil, Brasília, e a Bossa Nova
Com o pós-guerra, os Estados Unidos são considerados o país símbolo da Democracia na visão de um número considerável de empresários, políticos, militares e acadêmicos brasileiros. Bolsas de estudo e intercâmbios de todo tipo certamente contribuíram para isso, consolidando uma influência que pode ser constatada até mesmo entre aqueles que se reivindicam do campo progressista, sobretudo com as desilusões trazidas pelo chamado socialismo real. No momento, o identitarismo abre caminho entre os setores progressistas, com base na experiência étnica norte-americana.
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"Há, sem sombra de dúvida, uma cultura norte-americana de valor, e isso no plano da música e do cinema, entre outros. Mas não podemos desprezar determinados aspectos ou facetas da influência norte-americana no Brasil. O liberalismo político dos Estados Unidos, por exemplo, resulta em uma prática passível de muitos questionamentos. Mesmo entre os chamados pais fundadores dos Estados Unidos, a Democracia estava longe de ser uma prática consensual. Há um interessante texto do sociólogo Augusto de Franco nesse sentido, a mim indicado pelo engenheiro Camilo Sequeira. Os Estados Unidos se arvoram em polícia do mundo.” |

A face externa dos Estados Unidos repousa em uma espécie de fascismo de exportação.
Senão vejamos. A História registra que os sucessivos governos norte-americanos promoveram invasões de todo tipo em mais de 70 países, e estamos nos referindo somente ao século XX. Assim, os Estados Unidos invadiram a Nicarágua em 1912, o Haiti em 1915, a República Dominicana em 1916, a Rússia Soviética em 1918, o Panamá em 1941, a Coréia em 1945, além de terem fomentado golpes militares em países como Guatemala em 1954, Laos em 1955, Indonésia em 1957-1959, Congo em 1961, o Brasil em 1964. A guerra contra o Vietnam, quando os Estados Unidos lançaram contra esse país do sudeste asiático duas vezes e meia a quantidade de bombas lançadas durante toda a Segunda Guerra Mundial, se configurou como uma das ações mais tenebrosas cometidas por um país contra outro ao longo da História. Por outro lado, a administração Kennedy chegou a criar uma escola de repressão no Panamá, onde se ensinava a prática da tortura aos militares latino-americanos. E os Estados Unidos ainda foram responsáveis por jogar duas bombas atômicas contra o povo japonês, em 1945. Até hoje, não foi feito sequer um pedido de desculpas por essa insanidade, por essa brutalidade sem precedentes na História da humanidade. Um dos poucos períodos em que a política dos Direitos Humanos prevaleceu nos Estados Unidos ocorreu durante a gestão de Jimmy Carter, que pressionou, por exemplo, ditaduras como a brasileira nos anos 70.

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"O que está alinhado acima são fatos. Não há como refutá-los. E fatos que envergonham profundamente a consciência democrática e humanista de cada um de nós. Acontece que a barbárie promovida pelos Estados Unidos em vários pontos da Ásia e da América Latina, sobretudo, se volta hoje contra o próprio povo americano. O atual governo de Donald Trump começa a reprimir com violência os protestos internos.” |
Não que a tradição liberal nos Estados Unidos fosse tão coerente assim. Longe disso: apenas dois partidos se alternam no poder há mais de um século. Uma eleição, por sinal, que se desenrola em um Colégio Eleitoral cujas regras são praticamente incompreensíveis para os observadores dos outros países. A ponto de podermos considerar que pluripartidarismo e eleições diretas não fariam nem um pouco mal à vida política norte-americana.
Em todo caso, à força de desestabilizar e atacar militarmente metade do mundo, os norte-americanos foram habituados a uma cultura da violência raramente vista. E isso tem consequências internas. A desorientação reina nos Estados Unidos: cerca de 80 mil pessoas morrem anualmente, em função do uso de drogas. É estarrecedor. Não é por acaso que os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do planeta, com cerca de dois milhões e meio de pessoas presas. Uma tragédia para qualquer país. Isso, sem aludir ao fato de que os Estados Unidos, com problemas complexos nas relações entre brancos e negros ao longo de sua História, agora perseguem os imigrantes estabelecidos por vezes há dezenas de anos em seu território. Haja liberalismo para segurar esse rojão.

Donald Trump: Hitler ou Napoleão?
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"Mas o sob o segundo Governo de Donald Trump, os Estados Unidos vão dando a impressão de que podem ir além do que já o foram no passado, com suas ameaças contra a América Latina e o próprio Canadá, sem esquecer os seus propósitos de anexação da Groenlândia, um território europeu. Em um cenário que reúne, cada vez mais, fatores presentes tanto nos impasses que levaram à Primeira Guerra Mundial quanto à Segunda Guerra Mundial, é preciso entender que as investidas de Donald Trump podem levar o mundo à beira de uma catástrofe nuclear. Isolar os reacionários e neofascistas, reunindo em um mesmo campo os democratas das mais diferentes sensibilidades, parece ser a tarefa primordial do nosso tempo. ” |
Retornando ao problema da influência norte-americana entre nós. Ela se exerce de tal forma que a influência portuguesa, sobre a qual se assentou a colonização do Brasil, é considerada pelas classes dominantes americanizadas de hoje como algo que estaria na raiz de quase todos os nossos males, em particular do nosso conservadorismo, em contraposição ao americanismo, que seria democrático. Mas não é isso que a História nos ensina. Afinal, o Brasil é fruto da expansão comercial europeia, e, a partir dela, o país soube construir uma sociedade multiétnica, mestiça, operando uma síntese formidável entre as mais diferentes contribuições culturais. Não dá para virar essa página. O período colonial, como os períodos pré-colonial e o pós-colonial, integram a nossa História e nem poderia ser de outra forma. E o fato é que demos a volta por cima. O país avançou, apesar de não esquecermos das nossas dificuldades no plano social, que vão do inchaço das cidades à péssima divisão de renda existente no país, expressa nos baixos salários e nas carências existentes nos planos educacional, da saúde e do saneamento básico. Ainda assim, estamos entre os dez ou doze maiores países do mundo, com uma capacidade invejável de adaptação às demandas do mercado internacional e isso desde o século XVI, para o bem e para o mal: pau-brasil, açúcar, tabaco, ouro, prata, café, algodão, laranja e soja estão aí para não nos deixar mentir. Paralelamente, forjamos, aos trancos e barrancos, mas forjamos, um mercado interno, e isso desde praticamente os primórdios da fase colonial. Vivenciamos, por outra parte, experiências políticas libertárias marcantes, a saber: Quilombo dos Palmares, Conjuração Mineira, Conjuração Baiana, Missão Jesuítica com os índios guarani, Abolicionismo, Cabanagem, Coluna Prestes, Partido Comunista Brasileiro, lutas pela revolta agrária, a campanha O Petróleo é Nosso e os embates pela redemocratização. E legamos às nossas novas gerações o que o Humanismo nacional produziu de melhor, por meio de movimentos culturais como o Indigenismo, a Semana de Arte Moderna, as Escolas de Samba, o Teatro Opinião e o Cinema Novo. Esses movimentos e outros igualmente importantes no decorrer da nossa História revelaram figuras do peso de Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Aleijadinho, Fagundes Varela, Castro Alves, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Joaquim Nabuco, Chiquinha Gonzaga, Raul Pompéia, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Érico Veríssimo, Cecília Meireles, Álvaro Moreyra, Cora Coralina, Rubem Braga, Astrojildo Pereira, Alceu Amoroso Lima, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Djanira, Di Cavalcanti, Aparecida Azedo, Heitor Villa-Lobos, Noel Rosa, Pixinguinha, Cartola, Cândido Portinari, Marechal Rondon, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Dias Gomes, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Bibi Ferreira, Dalva de Oliveira, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Ênio Silveira, Darcy Ribeiro, Leôncio Basbaum, Alberto Passos Guimarães, Josué de Castro, Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré, Milton Santos, Luiz Werneck Vianna, Ariano Suassuna, Plínio Marcos, Humberto Mauro, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros, frutos da nossa mestiçagem cultural, do cruzamento entre mitos indígenas, língua portuguesa e herança africana. Além disso, soubemos manter uma integridade territorial que faz do nosso país hoje o quinto do mundo em extensão, logo atrás da Rússia, Canadá, China e do próprio Estados Unidos. Sem deixar de mencionar ainda que a nossa população é a oitava do mundo. Nada disso é pouco.

José Bonifácio - Patrono da Indenpendência do Brasil
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"O Brasil lutou para ser reconhecido internacionalmente. Nunca é demais lembrar que o reconhecimento diplomático do nosso país se deu inicialmente pela África. O Togo, por exemplo, chegou a querer se associar ao Brasil independente, mas José Bonifácio, ainda que agradecendo o gesto, declinou a oferta, dizendo que o Brasil não se sentia vocacionado a submeter país algum, uma vez que ainda travava uma luta árdua para garantir a sua Independência. Ou seja, éramos resolutamente anticoloniais. ” |
Seja como for, convém recordar que os Estados Unidos, então já plenamente independentes da Inglaterra, se recusaram a apoiar os conjurados mineiros, em 1789, sob a alegação de que precisavam manter seus interesses comerciais com Portugal. Desde o início, as nossas relações com os Estados Unidos não foram lá muito fáceis: houve uma época em que eles pretendiam até comprar a Amazônia. O plano implicava transferir parte considerável dos negros norte-americanos para a floresta amazônica (mais tarde, comprariam o atual território da Libéria, na África, aplicando assim o seu projeto de expulsão da população negra de seu território).
Diante do exposto, perde completamente o sentido a tentativa de depositar em uma potência estrangeira a responsabilidade por nossa entrada na modernidade. Sem virar as costas para o mundo, o Brasil tem recursos próprios para se afirmar.

Presidente John Kennedy observa pronunciamento do presidente João Goulart
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"De qualquer maneira, ao menos a mim, causa certa estranheza o fato de a Literatura brasileira, tão atenta aos problemas do país, não tenha produzido, até o presente momento, uma grande obra sobre as relações do nosso país com os Estados Unidos. Temas é que não faltam, nesses últimos 200 anos de convívio nem sempre tão cordial assim. Das relações dos conjurados de Minas Gerais com Thomas Jefferson, um dos líderes da Revolução Americana de 1776, às andanças de Hipólito José da Costa pela Filadélfia e daí às alianças estabelecidas durante a Segunda Guerra Mundial e também às tramas montadas pelos que conspiraram contra o Governo Jango em 1964. Ou seja, disputas comerciais, relações diplomáticas por vezes à flor da pele, casos de espionagem, trocas culturais, em um verdadeiro emaranhado de encontros e desencontros.” |
A nossa Literatura soube dialogar esplendidamente com o sertão e também com as cidades. Exemplos disso são dados pelas magníficas obras Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, Vidas secas, de Graciliano, Helena, de Machado de Assis e Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Mas ficou faltando o exame daquilo que, tendo origem no terreno externo, tanto nos marcou no terreno interno, como no caso da presença dos Estados Unidos entre nós e das relações que estabelecemos com esse país. A intromissão norte-americana no Brasil ainda não encontrou sua expressão literária.
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Ivan Alves Filho, historiador.



