As bolas de gude nunca se quebram: alteridade... monólogo
“As bolas de gude nunca se quebram” (2026), inaugura um outro ciclo na poesia de Mercia Pessôa, representa um exercício de alteridade, sendo um monólogo

Entrevista Mercia Pessôa
Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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A poetisa, professora e pesquisadora Mercia Pessôa constrói uma trajetória marcada pelo rigor da investigação acadêmica e pela sensibilidade poética. Sua formação em Língua e Literatura Russa trouxe forte influência para o seu referencial teórico e artístico, com especial atenção à representação do feminino e à leitura dos clássicos. Além disso, suas pesquisas doutorais debruçaram-se sobre o mito de Fausto, o Sertão e o romanesco. Nascida no Rio de Janeiro, sua infância e vivência foram marcadas por deslocamentos pelo Brasil e raízes em Pernambuco, onde teve seu primeiro contato com a poesia de nomes como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Contudo, por viver grande parte de sua vida cercada pelo mar carioca, sua escrita traz forte presença da paisagem urbana e marítima. Sua caminhada na poesia começou com a obra Súrnia (1996). Após um período dedicada aos estudos acadêmicos, a autora retornou às publicações com Zoa (2016). Na sequência, lançou os livros Augusta (2019) e Ily (2022).

"Súrnia" livro de estreia de Mercia Pessôa
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"Em 2026, chega ao público seu quinto livro de poesia: "As bolas de gude nunca se quebram". A obra inaugura um novo ciclo em seu fazer literário ao apresentar um monólogo sob uma voz masculina, derivado do poema "Aos olhos de Tereza", do seu livro de estreia. Combinando elegância, concisão e elementos lúdicos, a escrita de Mercia Pessôa aborda temas densos a partir da leveza, do intimismo e da busca pela beleza das palavras.” |
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Luiz Carlos Prestes Filho: O livro Súrnia ocupa um lugar muito especial na sua trajetória — e inclusive tive o privilégio de escrever sobre ele há alguns anos. Olhando hoje para essa obra, qual imagem ou pulsação poética daquele período você sente que continua viva e alimentando os seus versos atuais? Inclusive o livro "As bolas de gude nunca se quebram" que está lançando?
Mercia Pessôa: O livro Súrnia (1996) é muito especial e o seu texto sobre ele, “Simulacros genuínos” e o texto “Posfácio”, do Nelson Ascher, não só inauguraram a crítica, como me deram a dimensão da poesia que escrevo até hoje. Isso foi e é muito significativo para mim, porque norteou o caminho poético que é inerente a mim. Vocês me presentearam de uma forma que eu não sei como agradecer, pois me deram uma bússola que guardo e tenho comigo, um guia para as horas difíceis da travessia, onde é muito fácil se perder e cair em abismos. Súrnia representa o começo de uma trajetória de 30 anos, num momento em que estou lançando o quinto livro. Nesse período, houve um lapso de 20 anos em que praticamente a poesia secou, me deixando numa espécie de exílio, em um terreno muito árido, que é o estudo do mito de Fausto, do Sertão e do romanesco, que resultou na minha tese de doutorado.

Mercia Pessôa
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"O segundo livro Zoa (2016) fecha esse ciclo de duas décadas, sendo um outro motivo para comemorar, pois representa o renascimento da poesia que me toca. A partir daí, o processo de criação e escrita foi contínuo, tendo publicado “Augusta” (2019), “Ily” (2022) e agora “As bolas de gude nunca se quebram” (2026), que inaugura um outro ciclo, pois representa um exercício de alteridade, sendo um monólogo numa voz masculina, a partir de um poema do livro Súrnia, “Aos olhos de Tereza”. Todos esses livros foram publicados pelo editor Jorge Viveiros de Castro, que manteve comigo um diálogo ininterrupto e acolhedor, ao deixar as portas abertas de sua editora, a 7Letras.” |
Prestes Filho: A sua experiência na Rússia e o contato com a cultura e a literatura russa costumam impactar a sensibilidade artística de quem as vivência. De que maneira essa travessia geográfica e cultural reverberou na sua construção estética e no ritmo da sua escrita?
Mercia: A ligação com a Cultura e a Literatura Eslava foi decisiva, tanto na influência artística, como no referencial teórico. Fiz graduação e especialização em língua e literatura russa e, desde o início, o que me impactou e impacta até hoje é a representação do feminino, seja na escrita autoral de mulheres, seja na escrita autoral masculina. No ano de 2019, quando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro completou 110 anos, foi incrível assistir a ópera Fausto, de Gounod e na sequência, Eugênio Oniéguin, de Tchaikovsky.

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"Constatei que Pushkin, sendo um romântico, recusou e ignorou qualquer ideia de pacto, como uma forma de subjugar a mulher, quando optou por dar ênfase à representação do homem supérfluo e dar voz a sua personagem feminina, Tatiana. Com isso, Pushkin inaugurou, depois de Lermontov, toda uma galeria de anti-heróis, que foi seguida por muitos autores e serviu de inspiração para muitas mulheres, como Marina Tsvetáieva e Ana Akhmátova. Mas não fiquei presa somente à Literatura Russa, pois para obter um bom entendimento dos simulacros, precisei me munir de muitas leituras, entre elas, clássicos gregos, europeus e brasileiros.” |
Prestes Filho: Além do contato internacional, você traz na bagagem viagens pelo interior e por diversas regiões do Brasil. Como esses deslocamentos territoriais e a escuta das vozes locais alimentam a paisagem da sua poesia?
Mercia: De fato, minha vida começou com deslocamentos, foram muitas viagens de avião, de ônibus e de carro. Desde a primeira infância saindo do Rio, cruzando o estado de Minas Gerais, Bahia, Alagoas até chegar em Pernambuco, estado originário de minha família, onde nasceram meus pais e avós, onde fui batizada e onde tive o primeiro berço poético, digamos assim.

Mercia Pessôa
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"Fui embalada pela poesia de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso e Clarice Lispector. Mas por ter vivido a maior parte da vida no Rio de Janeiro e cercada por mar, a paisagem na poesia que escrevo, é basicamente urbana e marítima, tendo a recorrência de múltiplas vozes e de diversas identidades que se cruzam e reverberam através do pensamento poético e memorialístico.” |
Prestes Filho: Sua atuação na vida acadêmica exige rigor teórico, pesquisa e docência, enquanto a poesia pede intuição e escuta do invisível. Como funciona essa convivência entre a pesquisadora rigorosa e a poeta em seu cotidiano?"
Mercia: Acho a ideia de um rigor acadêmico, conceitualmente, muito forte, porque implica em amarras e distanciamentos. Escrever poesia requer um desprendimento absoluto, pois a poesia acaba sendo a única coisa que importa no final e no início de qualquer processo criativo.

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"Acredito que toda pesquisa, seja com fins acadêmicos ou poéticos, parte primeiro da intuição, do olhar, da escuta e é movida pela busca de explicações, de respostas, de racionalidade, que resulta em aprendizado. Mas existem coisas que não tem explicação e este campo passa a ser o domínio, próprio, da autêntica poesia.” |
Prestes Filho: Ao longo de suas publicações percebe-se uma constante investigação da palavra. Como você enxerga a evolução do seu próprio fazer poético hoje e o que tem guiado suas buscas literárias mais recentes?
Mercia: Nunca soube lidar muito bem com a palavra e ao mesmo tempo sempre mantive um cuidado e respeito pelo seu uso, que é o que me leva a escrever poesia. Talvez por isso, a crítica e os leitores tenham considerado a sutileza e a elegância como marcas de um estilo que fui moldando, ao longo do tempo, através da ideia de uma poética profunda, condensada, carregada de significados e ao mesmo tempo leve. Manter a leveza e buscar a beleza significa fazer recortes entre a melancolia, o intimismo à sombra do poder e as formas sociais de silenciamento e apagamento que são impostas à figura feminina e às minorias. Considero o silenciamento uma violência, que faz com que as pessoas adoeçam e morram em vida. Então trato desses temas que considero densos e pesados, mas a partir de uma perspectiva do realismo pleno, que opera de dentro para fora, através da linguagem, da expressão da alma e do próprio fazer poético que promove uma autêntica alquimia das palavras. Nessa alquimia, encontro a síntese, que hoje considero e a vejo como dialética. Para concluir, gostaria de destacar a voz de Luiz Barros Montez, que em sua crítica sobre o livro Ily (2022) apontou para o aspecto lúdico como uma característica, que agora vem com força no livro “As bolas de gude nunca se quebram”.

Mercia Pessôa
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"Creio que o lúdico me acompanha desde a infância, da época em que fui alfabetizada com o uso de parlendas. Foram as parlendas que despertaram a sensibilidade poética em mim. E isso faz toda a diferença na poesia que escrevo. É o que me salva e faz com que a poesia permaneça em mim e nos leitores que a leem” |
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Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



