Tomás Improta, o grande músico que pensou em ser engenheiro

Tomás Improta, o grande músico que pensou em ser engenheiro

Tomás Improta, o grande músico que pensou em ser engenheiro

logo

Por Rogperio Marques

Catetear Notícias - reprodução da página QuarentenaNews 

Vivi algumas passagens curiosas com o pianista e compositor que acaba de nos deixar e que conheci nos anos 60: Tomás Improta. Vejam só, ele teve um livro do Marquês de Sade levado por ladrões que invadiram sua casa em Santa Teresa, no Rio.

A morte de Tomás Improta, pianista virtuoso e compositor, no domingo, 23, além de causar tristeza me fez viajar ao final dos anos 1960, quando conheci aquele cara meio tímido, de humor fino, charmoso, muito educado, que fazia sucesso com as meninas. Foi meu irmão mais velho, Ronaldo Gomes, que me apresentou ao Tomás. Éramos todos muito jovens. Os dois cursavam o primeiro ano de engenharia operacional na Escola Técnica Federal, atual Cefet/RJ, no bairro do Maracanã. Morávamos em  lados opostos da cidade, ainda bancados pelos nossos pais: Tomás, na Avenida Princesa Isabel, Copacabana. Ronaldo e eu na Avenida Marechal Rondon, no Rocha. 

"Sempre achei curiosa aquela iniciação do Tomás no ramo da engenharia, porque desde criança ele tinha inclinações musicais, especialmente no piano. O noticiário sobre sua morte informa que com apenas cinco anos Tomás venceu o Concurso de Iniciação Musical do Conservatório Brasileiro de Música. Essa precocidade certamente tem origem no ambiente em que vivia: sua mãe, Ivy Improta, era pianista de prestígio e o pai, Eurico Nogueira França, crítico, musicólogo e também pianista.”

Felizmente, para todos nós, logo após concluir o primeiro ano Tomás Improta deixou o curso de Engenharia Operacional para investir na carreira de músico, enquanto meu irmão Ronaldo foi trabalhar no Serpro como programador. Naquele curto período, os dois fizeram boa amizade. Entre uma aula e outra, jogaram muitas partidas de sinuca no famoso salão de bilhar do Café Palheta, na Praça Saens Peña, na Tijuca. 

"Nessa mesma época, eu estava começando a vida profissional no “Correio da Manhã”, na Avenida Gomes Freire, na Lapa, primeiro como revisor, depois como redator, com o cargo de secretário gráfico. Lá conheci Eurico Nogueira França, pai do Tomás, que tinha uma conceituada coluna de crítica voltada para a música clássica. Eu gostava muito de conversar com o Eurico, que tinha idade para ser meu pai. Admirava sua cultura geral e sua simplicidade. Talvez por saber que eu conhecia seu filho, ele me dava muita atenção.

Não esqueço o dia em que, preocupado com o futuro profissional do Tomás, por ter deixado o curso de engenharia operacional, Eurico me perguntou se eu não conseguiria “algum trabalho” para ele lá no jornal. Aquilo me impressionou, porque eu era quase um “foca”, enquanto Eurico Nogueira França era muito conceituado, um grande nome do jornal. Tinha mil vezes mais condições que eu de conseguir um emprego para o filho. Hoje, diante do brilhantismo do Tomás na carreira que seguiu, como pianista e compositor, chego a achar engraçado aquele episódio. Outro momento curioso daquela época envolve o livro “Os 120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade, que Tomás emprestou ao meu irmão Ronaldo. A obra do famoso Marquês relata as orgias e os crimes praticados por quatro homens ricos, isolados em um castelo na França.  

"Com o passar do tempo, tomamos caminhos diferentes, nos afastamos. O livro ficou comigo pelo menos por 30 anos, talvez mais, até que uma noite eu e Tomás nos encontramos no bar Rio Scenarium, na Rua do Lavradio, na Lapa. Conversamos bastante e falei que gostaria de devolver o livro, com imenso atraso. Ele me passou o endereço e deixei na casa dele, em Santa Teresa.

Pouco tempo depois, nos encontramos novamente e o Tomás me contou algo surpreendente: um dia, quando ele estava fora, ladrões invadiram a casa e levavam alguns objetos, entre eles o livro do Marquês de Sade. Aquele mesmo que eu tinha acabado de devolver, depois de ficar décadas guardado comigo. Nós até rimos do episódio, porque não é comum ladrões furtarem um livro. Talvez tenham sido atraídos pelo título, “Os 120 Dias de Sodoma”, acreditando que se tratava de um livro “de sacanagens”. De alguma forma, não deixava de ser. Outro empréstimo do Tomás, no final daqueles anos 60, foi o disco “A nova dimensão do samba”. Para mim, um dos melhores trabalhos do Wilson Simonal, uma mistura de samba e bossa nova, com músicas de Moacir Santos, Mário Telles, Johnny Alf, Orlandivo, Tom, Vinicius, Newton Mendonça e outras feras. Ouvi demais esse disco, e ao contrário do livro do Marquês de Sade devolvi num prazo bem razoável. De alguma forma, as músicas daqueles grandes compositores, na voz do Simonal, refletiam a carreira brilhante que começava a se descortinar para Tomás Improta. 

"Por mais de 50 anos, ele acompanhou, em shows e gravações, alguns dos nomes mais importantes da nossa música, como Caetano Veloso, Baden Powell, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Chico Buarque, Djavan, Elizeth Cardoso e muitos outros.

Fez parte do grupo “A Outra Banda da Terra”, que acompanhou discos fundamentais da obra de Caetano, entre eles "Cinema Transcendental" (1979), "Outras Palavras" (1981), “Cores, Nomes” (1982) e “Uns” (1983). Nos anos 90, Tomás Improta investiu na carreira solo e lançou discos como “Tear” (1992), “Certas Mulheres” (1998) e “Olha pro Céu” (2017). Ao saber da morte do músico, Maria Bethânia escreveu em sua página no Instagram: “O Brasil se despede de Tomás Improta”. E reproduziu o vídeo de uma conversa antiga com o velho amigo, que parecia ainda mais tímido ao ser elogiado sem parar pela maravilhosa Bethânia.

Veja a conversa aqui no link: https://www.instagram.com/reels/DcbAv0XRiTQ/

Rogério Marques é jornalista