Bigode: testemunha e protagonista do cinema brasileiro
Luiz Carlos Lacerda, Bigode, testemunha e protagonista do cinema brasileiro

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, é testemunha e protagonista do cinema brasileiro. Somos xarás por uma decisão de seu pai, o produtor João Tinoco de Freitas, que, no alge de sua militância comunista, o nomeou em homenagem ao meu pai, Luiz Carlos Prestes. Essa irmandade transformou-se em uma amizade de quatro décadas, iniciada em 1983, logo no meu retorno do exílio ao Brasil. Desde então, compartilhamos ideias. Bigode foi colaborador generoso das páginas do "Cine Imaginário", jornal dedicado ao cinema nacional que fundei com um coletivo de amigos e que circulou entre 1986 e 1989. Desde o aprendizado com mestres como Nelson Pereira dos Santos até a realização de obras marcantes e a formação de novas gerações de realizadores, ele traz nesta entrevista a paixão de quem devotou a vida à liberdade. São dezenas de anos dedicados à sétima arte. Nesta entrevista relembra suas origens, a influência fundamental de seu pai - um dos produtores do clássico "Rio, 40 Graus". A entrevista destaca sua rica trajetória cinematográfica, desde a estreia de "Mãos Vazias" (1971), estrelado por sua amiga Leila Diniz, até obras premiadas como "For All - O Trampolim da Vitória". Influenciado pela literatura de Lucio Cardoso, pelo Neorrealismo Italiano e pela chanchada, seu cinema tem uma assinatura conectada com a identidade cultural brasileira. Além da produção artística, o texto põe em evidência a constante militância política e sindical de Luiz Carlos Lacerda em defesa do audiovisual nacional. Como um dos fundadores e atual conselheiro da Associação Brasileira de Cineastas (ABRACI), Bigode reflete criticamente sobre o papel da ANCINE, a ocupação do mercado interno frente às distribuidoras norte-americanas e às plataformas de streaming. Defende com firmeza a soberania cultural e o incentivo ao cinema independente. Com um olhar atento ao ensino e à formação de novas gerações de realizadores, Bigode demonstra que seu compromisso com o cinema brasileiro permanece tão vivo quanto no primeiro dia. Recentemente lançou dois livros de poesias pela editora Mirada: "Labirinto Febril" e "Amorosa Ciência", Vale a a pena ver seus filmes e ler sua poesia.
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"Já tinha sido Assistente do Ruy Santos, amigo do meu pai, no longa "Onde a terra Começa" (1965) e, em seguida , fui trabalhar como assistente do Nelson Pereira dos Santos em "El Justiceiro" (1966). Na equipe havia um rapaz chamado Luiz Carlos Lacerda. Como eu usava barba e bigode, para facilitar, o Nelson me chamava Luiz Carlos Bigode. E assim ficou. Deixei de ser 'o filho do Tinoco' e ele passou a ser 'o pai do Bigode'.” |

Cartazes de filmes de Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
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Luiz Carlos Prestes Filho: Você começou sua trajetória no cinema muito jovem, trabalhando como assistente do mestre Nelson Pereira dos Santos (em obras como “Fome de Amor” e “Azyllo Muito Louco”). De que maneira o rigor ético, o olhar antropológico e o método de trabalho de Nelson moldaram sua própria identidade e independência como cineasta desde seu filme “Mãos Vazias” (1971)?
João Tinoco de Freitas, pai de Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
Luiz Carlos Lacerda (Bigode): Antes mesmo de trabalhar com Nelson, foi meu pai, João Tinoco de Freitas — um dos produtores de “Rio, 40 Graus”, entre muitos outros filmes, e fundador da Liberdade Filmes, do PCB —, que me inoculou essa ética cinematográfica. E também, desde menino, observando as conversas em minha casa dele com Nelson, Ruy Santos (o 1º diretor de quem fui assistente), Alex Viany e Genil Vasconcellos (1º a fazer filmes antropológicos, especialmente focados nas nossas comunidades indígenas).

Aos 19 anos, no seu primeiro trabalho no cinema, Luiz Carlos Lacerda (Bigode), e a atriz Irma Alvarez. Foto: André Palluch
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"Observando Nelson Pereira dos Santos e sua forma discreta de trabalhar, fui consolidando um aprendizado para meus filmes.” |
Nelson Pereira dos Santos e Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
Prestes Filho: O Cinema Novo e o ambiente cultural do Rio de Janeiro nas décadas de 1960 e 1970 foram marcados por encontros intensos. Sua amizade com Leila Diniz — que protagonizou seu primeiro longa-metragem — tornou-se lendária. Além de Leila, como o convívio com figuras como Roberto Pires, Alex Viany, Paulo César Saraceni e outros intelectuais afetou sua formação humana e artística?
Bigode: Leila e eu nos tornamos amigos na nossa adolescência; tínhamos os mesmos interesses e curiosidades culturais. Marcante na minha formação, além de meu pai e de Nelson, foi a literatura de Lucio Cardoso — o mestre do romance de introspecção psicológica —, de cuja obra adaptei e dediquei vários filmes.
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"Meu cinema tem uma pegada de humor influenciada pelas comédias brasileiras e italianas (Oscarito & Grande Otelo & Vittorio De Sica), pelo Neorrealismo Italiano e sua preocupação social, e pela psicologia humana — que sempre me interessou. Em “For All”, o personagem Sandoval, interpretado por Luiz Carlos Tourinho e premiado, é inspirado no Oscarito.” |

Luiz Carlos Lacerda (Bigode) e Leila Diniz. Filme "Mãos Vazias"
Prestes Filho: Como cineasta, professor e historiador prático da nossa cinematografia, como você dividiria didaticamente as fases históricas do cinema brasileiro? Quais seriam os grandes pontos de ruptura e inflexão — do Ciclo de Humberto Mauro ao Cinema Novo, passando pela Vera Cruz, a Chanchada, a Retomada e o cenário contemporâneo?
Bigode: Essa pergunta daria um seminário! Kkkk. O cinema brasileiro está inserido no processo político e econômico da sociedade brasileira. Cada período reflete uma fase da nossa cultura e do momento histórico. Seu nascimento, no fim do século XIX, surge com os irmãos Segreto para atender a um público que era consumidor. Com o Ciclo de Cataguases e o bissexto Mário Peixoto, inaugura-se a autoralidade que se debate contra os estúdios inspirados na indústria norte-americana e no cinema do fascismo italiano — que deram continuidade ao puro interesse mercantilista. Como não tinham uma visão política, desconsiderando que o mercado era dominado pelos estúdios norte-americanos, não foi adiante. O único que durou dos anos 40 até 1959 foi a Atlântida — porque eram produtores, distribuidores e donos de uma cadeia exibidora espalhada pelo país inteiro. Com a inserção da TV no costume cultural dos brasileiros, esse modelo se esgotou. E, inspirado no Neorrealismo italiano, Nelson inaugurou o cinema autoral e independente, fora dos estúdios, em locações e com equipes reduzidas e equipamentos leves. O Cinema Novo, da geração seguinte, do Glauber, Roberto Pires, Saraceni, Mário Carneiro, deu continuidade a essa nova forma de produção. Ruy Guerra, formado em Paris no IDHEC, trouxe a influência da linguagem da Nouvelle Vague de Godard.

Luiz Carlos Lacerda (Bigode) colaborou com o "Cine Imagiário"
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"O cinema brasileiro hoje é o resultado do seu processo histórico: os filmes autorais e independentes e o cinema com pretensões comerciais. O mercado segue dominado pelas distribuidoras americanas.” |

Cartazes de filmes de Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
Prestes Filho: Olhando em perspectiva para a história do cinema nacional, qual geração específica de cineastas ou movimento você destacaria como o momento de maior invenção de linguagem e compromisso com o Brasil, e por quê?
Bigode: O cinema que me interessa é o autoral e independente. Além dos filmes dos jovens brasileiros (alguns dos quais tenho o orgulho de ter ajudado em sua formação) e dos sobreviventes da geração do CN (Ruy Guerra sendo o mais profícuo e crítico, aos 95 anos!), o cinema de resistência cultural de Júlio Bressane; os iranianos, sul-coreanos e os da América Latina, e o jovem cinema americano independente.
Com Nelson Sargento, filmagem série "Enciclopédia do Samba" (2024)
Prestes Filho: Entre os diretores brasileiros vivos em atividade ou em reflexão teórica, quais nomes você faz questão de acompanhar e que continuam a te instigar como cinéfilo e mestre?
Bigode: Ruy Guerra é o mais longevo e profícuo. Aos 95, segue fazendo seus filmes autorais e rompendo com a linguagem tradicional. Entre os novos, Petrus Cariry, Allan Deberton, Alan Minas, Nicole Algranti, Taciana Oliveira, Cristiano Burlan, Rafael Conde, Eduardo Ades, Daniel Caetano, Felipe Fernandes Lespou, Bernardo Silvino.

Dirigindo os atores Fernanda Vasconcelos & André Arteche, na série "Rua do sobe e desce, número que desaparece" (2019).
Prestes Filho: Sua juventude e sua vivência na militância do Partido Comunista Brasileiro (PCB) ocorreram sob a sombra da ditadura militar. Como essa experiência militante e a consciência de classe influenciaram seu interesse pela política e a dimensão social presente nos seus filmes?
Bigode: Nasci em casa de comunista, como já citei. Essa foi a minha maior influência.
Prestes Filho: O cinema não é apenas linguagem, mas também uma cadeia produtiva e um setor econômico e social. Você sempre teve uma presença marcante nas lutas sindicais e associativas dos trabalhadores do audiovisual. Como você enxerga a evolução do movimento sindical cinematográfico desde o período da ditadura até os desafios do trabalho no streaming e na era digital?
Bigode: Fui um dos muitos fundadores da ABRACI (Associação Brasileira de Cineastas), um dos mais jovens, ao lado de Nelson, Glauber, Leon, Joaquim. Já fui presidente e atualmente sou conselheiro. Nossa atuação política é a responsável por todas as conquistas do cinema brasileiro nas últimas décadas, e no enfrentamento da burocracia e das pressões das distribuidoras norte-americanas.

Livros de poesia de Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
Prestes Filho: Você acompanhou o surgimento, a consolidação e os momentos de paralisação da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Como você avalia a atuação da agência hoje? Ela tem conseguido cumprir seu papel regulador e de fomento com eficácia, ou tornou-se excessivamente burocrática e distanciada dos realizadores?
Bigode: A Ancine surgiu para REGULAR o mercado, acabou assumindo o papel de FOMENTO, que antes era exercido pelo MinC e pela Secretaria do Audiovisual (SAv). Talvez pela cada vez maior inoperância desses órgãos, a ANCINE foi assumindo esse papel e tornou-se o monstro burocrático que entrava o processo de produção.
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"Nelson já tinha avisado antes que a criação da agência seria o sufocamento do cinema brasileiro.” |

O professor Luiz Carlos Lacerda (Bigode) e seus alunos
Prestes Filho: No âmbito do Ministério da Cultura (MinC), como você analisa as atuais políticas públicas voltadas para o audiovisual? Há um equilíbrio real entre o apoio ao cinema autoral-regional e os grandes projetos comerciais, ou o país ainda carece de uma política industrial e cultural de longo prazo?
Bigode: No Brasil, indústria é a TV. Até os que se rotulam de "cinema industrial" começam do zero a cada projeto. Não há espaço no mercado dominado pelas majors norte-americanas. Alguns desses produtores se associam aos estúdios estrangeiros para exibirem seus produtos culturalmente pobres e sem identidade cultural. Para botar uns trocados no bolso, não estão preocupados com outra coisa. Indústria só existiu com a Atlântida (anos 40 a 59), porque era produtora, distribuidora e exibidora, dona de salas em todo o território nacional.
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"O cinema independente divide o pouco espaço com os raros exibidores que fazem parcerias. Estreiam nos festivais e terminam suas carreiras nas TVs.” |

Luiz Carlos Lacerda (Bigode) professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro
Prestes Filho: Diante da concentração da exibição e da hegemonia das plataformas de streaming estrangeiras, quais políticas de regulamentação e preservação de mercado interno você considera urgentes para garantir a soberania da produção audiovisual brasileira?
Bigode: Falta vontade política para regular o mercado de streaming. Continuamos na luta, com apoio da Frente Parlamentar.
Prestes Filho: Ao longo de décadas dedicadas ao ensino em diversas faculdades e oficinas de cinema pelo país, você ajudou a formar gerações de técnicos, roteiristas e diretores. Olhando para o mercado atual, esses seus ex-alunos estão conseguindo atuar e viver de cinema no Brasil? Quais são os principais obstáculos que eles enfrentam ao sair da universidade?
Bigode: Depende da vertente que esses jovens escolhem. Os que eu citei são autores. Muitos deles premiados em festivais internacionais e que vivem dessa atividade - amparada pela política de incentivos. Alguns poucos se tornaram grandes produtores de sucessos comerciais - como a Iafa Britz, que foi minha aluna. Me orgulho de todos eles.
Prestes Filho: Como o seu método de ensino articula a fundamentação teórica e a história do cinema com a prática direta de "fazer filme", em um momento onde os equipamentos se democratizaram, mas o rigor da linguagem por vezes se dilui?
Bigode: Não tenho propriamente um método. Ensino o caminho das pedras do ponto de vista técnico e, claro, histórico.
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"Repito a resposta de Sócrates: "Ajudo as pessoas a parirem suas próprias ideias!".” |
Luiz Carlos Lacerda (Bigode) entre os seus alunos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage
Prestes Filho: A nova geração de cineastas brasileiros traz novos recortes de identidade, regionalidade e diversidade de temas. Você acredita que essa nova safra promete fazer avançar a linguagem do cinema brasileiro, ou nota uma dependência excessiva de modelos narrativos pré-formatados por editais e plataformas?
Bigode: Como disse o escritor Lucio Cardoso: "Meu único conselho é não seguir o conselho de ninguém!" Acho que cada um traça o seu caminho, constrói a sua linguagem, cria o seu estilo próprio.

Cartazes de filmes de Luiz Carlos Lacerda (Bigode)
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"Claro que indico a importância de consumir literatura, principalmente a brasileira — onde há uma forma de narrativa resultante do nosso processo cultural, e o interesse pela história da arte, principalmente para os diretores de fotografia e diretores de arte. Nela encontrarão os cenários, as cores e a luz, como referências e inspiração.” |
Prestes Filho: Sendo o cinema uma arte da resistência e do afeto no Brasil, o que o mantém motivado a continuar lecionando, escrevendo e filmando com a mesma paixão de quando começou ao lado de Nelson Pereira dos Santos?
Bigode: Apesar dos meus 80 anos, cultivo aquele mesmo menino que foi trazido pelas mãos do meu pai e do Nelson para o cinema brasileiro — que dedica sua vida a contar histórias e gosta de contá-las. É isso o que me move.
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Filmografia de Luiz Carlos Lacerda (Bigode):
"Mãos Vazias" - 1971
"Como Era Freak o meu Vale" - 1972
"O Sereno Desespero" (curta-metragem) - 1973
"O Princípio do Prazer" - 1979
"Repúbçica dos Assassinos" -1979
"Leila Diniz" - 1987
"A Princesa Xuxa e os Trapalhões" - 1989
"For All - o Trampolim da Vitória" -1997
"Parada GLBT Rio 2002" (curta-metragem) - 2002
"El Sexo lo Cambia Todo" - 2003
"A Morte de Narciso" (documentário) 2003
"Viva Sapato" - 2004
"Ze.com" (documentário) -2006
"Vida Vertiginosa" (curta-metragem)- 2009
"Casa 9" (documentário) 2011
"A Mulher de Longe" (documehtário) - 2012
"Introdução à Música do Sangue" - 2015
"O que Seri deste Mundo sem Paixão" - 2016
“Celebrazione" (curta-metragem) - 2023
"Enciclopédia do Samba" (série) - 2024
"O Cinema Possível" - 2026
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Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de cinema, compositor, poeta e jornalista; Especialista em Economia da Cultura e em Desenvolvimento Econômico Local; é autor dos livros "Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro", "Cadeia Produtiva da Economia da Música" e "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval"



