Desenvolvimento, Sustentabilidade, Democracia e Justiça social

Desenvolvimento, Sustentabilidade, Democracia e Justiça social

Paulo Lamac líder da Rede Sustentabilidade

Paulo Lamac por Luiz Carlos Prestes Filho

Exclusivo Catetear Notícias

Paulo Lamac é um líder político que une a precisão técnica da engenharia à sensibilidade do diálogo público. Com uma trajetória marcada pela gestão e pela coerência programática, nosso entrevistado possui vasta experiência no Executivo e no Legislativo, tendo atuado de forma destacada como Vice-Prefeito e Secretário de Governo de Belo Horizonte, além de sua representação parlamentar como Deputado Estadual e Vereador.
Atualmente, como porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, ele está na linha de frente do debate sobre o futuro institucional do país, defendendo que o verdadeiro desenvolvimento nacional só existe se caminhar de mãos dadas com a responsabilidade fiscal, a justiça social e a bioeconomia. Na entrevista que segue este líder compartilha suas perspectivas sobre os desafios da nossa democracia, gestão pública e a inserção do Brasil na agenda climática global.

Paulo Lamac em reunião da Rede no Rio de Janeiro

Luiz Carlos Prestes Filho: Como porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, como você avalia o atual momento de consolidação do partido no cenário nacional? De que forma a Rede tem conseguido equilibrar a defesa rigorosa da pauta socioambientalista com a necessidade de sobrevivência partidária diante das cláusulas de barreira?

Paulo Lamac: A Rede nasceu de uma convicção que o tempo apenas confirmou: não existe desenvolvimento verdadeiro sem sustentabilidade, nem sustentabilidade sem democracia e justiça social. Durante muito tempo essas agendas foram tratadas como temas periféricos. Hoje estão no centro das grandes decisões econômicas e geopolíticas do planeta. Ao mesmo tempo, o sistema político brasileiro passou por profundas mudanças. A cláusula de desempenho tornou mais difícil a sobrevivência dos partidos menores, mas também criou um ambiente que estimula maior organização e compromisso com a representação efetiva da sociedade. Vejo esse desafio de forma positiva.

"A Rede não pretende existir apenas para ocupar espaço institucional. Queremos existir porque temos uma contribuição singular para oferecer ao Brasil. Nossa consolidação depende de ampliar nossa presença social, fortalecer lideranças nos estados e demonstrar que é possível fazer política com coerência, responsabilidade e capacidade de governar.”

Paulo Lamac com a “Chapa indígena” do Amazonas, Sila Apurinã, Marcos Apurinã, Ismael Munduruku, pré-candidato ao Senado e Isael Munduruku, pré candidato a governador

Prestes Filho: A Rede construiu uma experiência muito debatida na federação com o PSOL. Quais foram as principais lições?

Paulo Lamac: A federação foi uma experiência inédita na política brasileira e, como toda inovação institucional, trouxe aprendizados importantes. Ela mostrou que partidos podem compartilhar um projeto comum sem abrir mão de suas identidades. Naturalmente surgem divergências, e elas são legítimas. O importante é que prevaleça o respeito às diferenças e a compreensão de que alianças existem para servir ao interesse público, não às conveniências momentâneas. A principal lição talvez seja esta: nenhuma construção política é sustentável se não estiver baseada na confiança, no diálogo permanente e na clareza dos objetivos comuns.

Prestes Filho: Que outras alianças estratégicas a Rede projeta? 

Paulo Lamac: A política não pode se limitar às relações entre partidos.

A Rede sempre buscou dialogar com universidades, movimentos sociais, organizações ambientais, cooperativas, empreendedores comprometidos com a inovação sustentável, lideranças comunitárias e setores produtivos que compreendem que desenvolvimento econômico e preservação ambiental caminham juntos.

"O Brasil precisa reconstruir pontes. Nosso projeto é justamente aproximar pessoas que compartilham valores democráticos, ainda que tenham trajetórias diferentes.”

Filiação de André Janones à Rede, com Paulo Lamac, Heloísa Helena e membros da direção nacional do partido

Prestes Filho: O mundo vive um momento de polarização. Diante disso qual é o significado real das atuais campanhas eleitorais no Brasil?

Paulo Lamac: Vivemos um momento em que as eleições passaram a discutir muito mais do que programas de governo. Estamos debatendo a qualidade da nossa democracia, a confiança nas instituições, a circulação da informação e até a forma como convivemos como sociedade. Por isso as campanhas precisam recuperar a capacidade de apresentar propostas e inspirar esperança. Quando a política deixa de apontar caminhos, ela abre espaço para o medo, para o ressentimento e para soluções autoritárias.

Prestes Filho: Como essas eleições se conectam ao cenário internacional?

Paulo Lamac: O Brasil nunca esteve tão inserido nas grandes transformações globais. Somos protagonistas naturais da agenda climática, da segurança alimentar, da transição energética e da proteção da biodiversidade.

"As escolhas feitas pelos brasileiros repercutem muito além das nossas fronteiras. Temos condições de liderar uma nova economia baseada no conhecimento, na ciência e no uso sustentável da nossa imensa riqueza natural.”

Paulo Lamac e o vereador Helber Borges, de Cambuquira, e Heloísa Helena

Prestes Filho: Como enfrentar o avanço da extrema-direita?

Paulo Lamac: O autoritarismo não será derrotado apenas pelo enfrentamento retórico. Ele perde força quando a democracia demonstra capacidade de melhorar concretamente a vida das pessoas. É preciso oferecer segurança, oportunidades, educação de qualidade, serviços públicos eficientes e instituições confiáveis. Ao mesmo tempo, devemos defender de forma intransigente a Constituição, os direitos fundamentais e o respeito às diferenças. Democracia exige firmeza na defesa dos seus princípios, mas também disposição permanente para dialogar com a sociedade.

Paulo Lamac porta-voz nacional do partido

Rede Sustentabilidade

Prestes Filho: Como dialogar com quem foi seduzido por discursos de ódio?

Paulo Lamac: É fundamental distinguir quem produz deliberadamente o discurso de ódio daqueles que foram convencidos por ele. Grande parte da população está preocupada com emprego, renda, segurança, educação dos filhos e perspectivas de futuro. Quando a política deixa de ouvir essas preocupações concretas, cria-se um vazio que acaba sendo ocupado por discursos simplistas. O caminho não é tratar adversários como inimigos. É reconstruir a confiança por meio do diálogo, do respeito e de resultados concretos.

Prestes Filho: Quais os maiores avanços e retrocessos da política brasileira?

Paulo Lamac: Nossa democracia amadureceu muito desde a Constituição de 1988. Temos instituições mais sólidas, maior participação da sociedade e mecanismos importantes de controle público. Por outro lado, ainda convivemos com enorme fragmentação partidária, baixa confiança nas instituições e uma crescente dificuldade de construir consensos.

"Precisamos fortalecer os partidos políticos como instrumentos de representação da sociedade. Democracias fortes dependem de partidos fortes, transparentes e verdadeiramente representativos.”

Paulo Lamac no lançamento da pré candidatura de Heloisa Helena a deputada federal pelo Rio de Janeiro

Prestes Filho: O presidencialismo de coalizão ainda permite reformas estruturais?

Paulo Lamac: Permite, desde que compreendamos que governar é construir convergências. Coalizões fazem parte da democracia. O problema não é negociar. O problema é quando a negociação deixa de ser programática e passa a ser apenas distributiva. O Brasil precisa recuperar a capacidade de formular grandes projetos nacionais capazes de reunir diferentes forças políticas em torno de objetivos comuns.

Prestes Filho: Como avalia a política econômica?

Paulo Lamac: O Brasil precisa abandonar a falsa escolha entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social. As duas caminham juntas. Equilíbrio das contas públicas, estabilidade econômica e segurança jurídica são indispensáveis. Mas também precisamos investir fortemente em educação, inovação, infraestrutura, ciência e tecnologia. Além disso, o país precisa avançar para um sistema tributário verdadeiramente progressivo, que tribute melhor a renda e o patrimônio e alivie a carga sobre quem vive do trabalho e da produção. Desenvolvimento sustentável significa crescimento econômico com inclusão social e responsabilidade ambiental.

Prestes Filho: A economia verde é viável?

Paulo Lamac: Mais do que viável, ela representa nossa maior oportunidade histórica. Poucos países possuem a combinação de biodiversidade, potencial energético, capacidade agrícola e base científica que o Brasil reúne. A bioeconomia pode gerar empregos qualificados, aumentar nossa competitividade internacional, agregar valor à produção nacional e preservar nosso patrimônio ambiental. Não se trata de escolher entre economia e meio ambiente. O futuro exigirá exatamente a integração dessas duas dimensões.

Prestes Filho: Como sua experiência na Prefeitura de Belo Horizonte ajuda hoje?

Paulo Lamac: A gestão pública ensina uma lição essencial: toda decisão política tem consequências concretas na vida das pessoas. Na prefeitura aprendemos diariamente que é preciso equilibrar planejamento, responsabilidade fiscal, diálogo permanente e capacidade de execução. Essa vivência ajuda a compreender que boas ideias só produzem transformação quando conseguem sair do papel.

Prestes Filho: O que a gestão municipal ensina ao Parlamento?

Paulo Lamac: Ela ensina humildade. Na administração municipal, o cidadão não cobra discursos. Cobra o posto de saúde funcionando, a escola aberta, o transporte chegando no horário, a rua iluminada. Quem administra uma cidade aprende rapidamente que políticas públicas só fazem sentido quando melhoram efetivamente a vida das pessoas. Essa perspectiva deveria orientar todas as decisões nacionais.

Prestes Filho: Como conciliar sua formação técnica com a política?

Paulo Lamac: Sempre enxerguei essas duas dimensões como complementares. A engenharia ensina a organizar problemas complexos, identificar prioridades e construir soluções consistentes.

" A política ensina que nenhuma solução é sustentável sem diálogo, participação social e sensibilidade humana. Governar exige tanto método quanto capacidade de ouvir.”

Paulo Lamac e a esposa, Álida Maria da Costa, conselheira tutelar de Belo Horizonte

Prestes Filho: Sua família participa dessa caminhada?

Paulo Lamac: Minha família sempre foi meu maior ponto de equilíbrio. Ela acompanha minha trajetória, compartilha as alegrias e também faz críticas quando considera necessário. E isso é muito importante. A vida pública pode criar a ilusão de que estamos sempre certos. A convivência familiar nos lembra diariamente que ninguém cresce cercado apenas por aplausos. São eles que me ajudam a manter os pés no chão e a lembrar que toda atividade política só faz sentido quando permanece a serviço das pessoas.

Luiz Carlos Prestes Filho é jornalista