Ion Sysoevich e Aleijadinho
Aleijadinho e Ion Sysoevich

Por Luiz Carlos Prestes Filho
Exclusivo Catetear Notícias
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As trajetórias de Ion Sysoevich, Metropolita Iona III de Rostov Velikiy do século XVII, e de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, maior expoente da arte colonial brasileira do século XVIII, revelam como a arquitetura e a arte podem se transformar em manifestações máximas de identidade nacional e resistência espiritual. Embora tenham vivido em contextos diferentes — um no coração da expansão da fé cristã ortodoxa russa e o outro no ápice do ciclo do ouro no Brasil colonial —, ambos usaram o espaço urbano para projetar seu tempo.
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"Ion Sysoevich governou a diocese de Rostov Velikiy num momento crítico, quando a Igreja Ortodoxa Russa buscava reafirmar sua autoridade espiritual. Ao idealizar o Kremlin de Rostov, Ion não estava pensando apenas em uma fortaleza defensiva militar para a época. Ele queria construir a representação física do Jardim do Éden na Terra. Para Ion, o futuro do país dependia de uma identidade espiritual. Seus templos com acústicas perfeitas, os sinos de Rostov Velikiy e as muralhas imponentes do Kremlin (fortaleza) serviam para lembrar que o poder espiritual da Igreja era o verdadeiro pilar que sustentava o país.” |

Kremlin de Rostov Velikiy
Do outro lado do Atlântico, no século seguinte, o ouro enriquecia a Coroa Portuguesa. Mas o descontentamento local crescia, culminando com a revolução da Inconfidência Mineira (1789), que teve como centro a cidade de Ouro Preto. É nesse cenário de luta pela independência do Brasil que surge Antônio Francisco Lisboa.
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"Aleijadinho operou dentro do sistema colonial, mas sua genialidade subverteu as regras. Suas fachadas curvas e suas esculturas em pedra-sabão introduziram uma plasticidade genuinamente brasileira, rompendo com a rigidez dos moldes puramente europeus. Enquanto a elite conspirava em salas fechadas, as obras e esculturas de Aleijadinho davam corpo e alma à nova terra nas ruas e praças. Seus profetas e santos ganhavam traços mestiços e expressões de angústia e altivez que espelhavam as dores e o desejo de liberdade do povo brasileiro escravizado e oprimido.” |

Ouro Preto
Enquanto Ion Sysoevich usou a escala monumental para erguer barreiras e proteger a pureza da alma russa, Aleijadinho usou a delicadeza e a expressividade do Barroco tardio para romper as barreiras invisíveis da opressão colonial. Ao explorar as construções de Rostov, as obras-primas de Sysoevich saltam aos olhos, como os templos da Ressurreição e de São João Evangelista. Eles, que estão suspensos sobre os portões de entrada do Kremlin (fortaleza), impressionam pelo contraste entre as bases robustas das muralhas e a leveza de suas cúpulas que tocam o céu. O Campanário foi idealizado para projetar o som a grandes distacias. Sysoevich mandou erguer uma estrutura imponente ao lado da antiga Catedral da Assunção para abrigar um gigantesco sistema de sinos afinados como instrumentos musicais, que desde aquela época ecoam pela planície russa. É original a identidade do Jardim do Metropolita: uma área verde planejada dentro do Kremlin para ser o símbolo terrestre do paraíso celestial, servindo de refúgio.

Igrejas sobre a entrada do Kremlin
As maos de Aleijadinho, afetadas por uma doença degenerativa, que causou atrofia e perda de dedos, esculpiram traços africanos em anjos e santos, imprimindo a angústia e a altivez. Caminhando pelo circuito histórico que hoje compõe o acervo vivo do Museu Aleijadinho, que interliga o Santuário de Nossa Senhora da Conceição e o templo de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, a identidade brasileira ganha forma em suas principais obras na cidade. Destaque para a Igreja de São Francisco de Assis. Nela está esculpida a genialidade de Aleijadinho. Ele desenhou o projeto arquitetônico inovando com fachadas e torres circulares recuadas, realizou a imponente portada em pedra-sabão.

Nossa Senhora do Carmo
O santuário de Nossa Senhora do Carmo teve o seu projeto inicial idealizado por seu pai, Manuel Francisco Lisboa, mas Aleijadinho deixou sua marca definitiva ao reformular a fachada com elementos em estilo rococó e esculpir os altares laterais e o magnífico lavabo da sacristia em pedra-sabão. Colocar a monumentalidade de Ion Sysoevich ao lado da expressividade dramática de Aleijadinho ajuda a perceber que a grande arte nunca é passiva. Ion usou muralhas, jardins celestiais e a acústica dos sinos para proteger a pureza da alma russa. Aleijadinho usou a maleabilidade da pedra-sabão para quebrar as barreiras invisíveis da opressão colonial. Ambos sabiam perfeitamente que os governantes passariam e os impérios ruiriam, mas suas obras no chão de Minas Gerais e no chão de Rostov Velikiy, serviriam à eternidade.
(1) O Metropolita Iona Sysoevich dedicou 38 anos de sua vida a Rostov Veliky (Rostov, a Grande). Ele governou a eparquia de Rostov e Yaroslavl de 1652 a 1690. Durante esse tempo, transformou a cidade em um dos principais centros espirituais e arquitetônicos da Rússia, erguendo o famoso Kremlin de Rostov e o complexo da Catedral da Assunção.
(2) Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, nasceu e viveu em Ouro Preto (então Vila Rica). Ele dedicou praticamente toda a sua vida artística e adulta à cidade, num período de cerca de 40 a 50 anos, desde que começou a trabalhar profissionalmente ao lado de seu pai na década de 1750 até o fim de sua vida em 1814.
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Luiz Carlos Prestes Filho é escritor



